quarta-feira, 29 de outubro de 2008
O nosso contributo
O conhecimento evolui. As modalidades todos os anos recebem o impacto de alterações técnicas, tácticas, condicionais, volitivas, etc., introduzidas pelo estudo e investigação dos especialistas, tornando-se essencial que a estrutura nacional de formação de treinadores apresente respostas adequadas no âmbito da necessária actualização dos treinadores e estes tenham consciência de que o seu desempenho depende da auto-preparação e da abertura que revelem à actualização constante dos seus conhecimentos.
Segundo Constantino (1992), a formação de treinadores a ser desenvolvida entre nós não pode ser entendida como uma peça separada de uma política integrada de desenvolvimento desportivo e deve possuir um mínimo de unidade, harmonia e coerência com os objectivos previamente definidos. Assim sendo, quais são as necessidades de formação no âmbito das práticas desportivas que passaram a designar-se pela etiqueta de «artes marciais e desportos de combate»? Quais os objectivos a atingir? Qual é o papel dos formadores? São portadores de uma ideologia ou cultura com respeito ao desporto? Quais os efeitos sociológicos da formação ministrada? Que tipo de competências sociais, motrizes, intelectuais e afectivas são contempladas no processo formativo?
Estas e outras questões, que temos o direito de alvitrar, mesmo quando cientificamente seja difícil de responder, estão por esclarecer. A presente comunicação tem por objectivo apresentar algumas respostas, de um ponto de vista sociológico, sobre a credencialização dos treinadores/instrutores de karaté em Portugal.»
Curado, José (1991), Planeamento do Treino e Preparação do Treinador, Colecção: Desporto e Tempos Livros, n.º 2, Lisboa: Editorial Caminho.Curado, José (2002), Organização do Treino nos Desportos Colectivos. Pontos de partida, Colecção: Desporto e Tempos Livros, n.º 29, Lisboa: Editorial Caminho.
Um amigo disse...
terça-feira, 28 de outubro de 2008
1.º Congresso Nacional de Treinadores de Karaté

Para mais informações, consulte: http://www.fnkp.pt/home/noticias/1CongressoNTK.pdf
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Restaurante Arena d'Évora
Estudos que não servem para nada
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Estudar (cientificamente) o karaté em Portugal
Todos estes aspectos exteriores são apresentados como caracterizadores do karaté, aparecendo tal significantes em competições desportivas, estágios de mestres nacionais e estrangeiros, aulas e treinos, filmes, etc. Do ponto de vista sociológico, o karaté moderno, fora da sua instrumentalização militar e policial, integra-se num processo civilizacional analisado por Norbert Elias, em que a violência se transforma em convenções controladas. É veiculado por práticas convencionais, mas expressado através de discursos e símbolos adaptados do Japão para o “Ocidente”. O karaté constitui, assim, uma linguagem própria e possui uma cultura identitária, partilhando sentimentos de pertença e possui significados estruturadores, concepções de vida e de normas de conduta.
No caso concreto das artes de combate dual, onde o karaté se insere, podemos verificar diferentes usos sociais: desportivos (internacionalização das competições); profissionais (actividade remunerada); integração social (populações consideradas de risco); higienistas (desenvolvimento pessoal ou profissional); segurança (preparação militar, forças de segurança); artísticos (estilos corporais ou de vestuário); gestão/administração (incorporação de preceitos/ensinamentos estratégicos oriundos das “filosofias” marciais e do extremo oriente nos manuais de gestão e de economia); turísticos (visitas aos locais de Shaolin na China ou da Aikikai em Tóquio, entre outros). A noção de uso social, amplamente referida nos trabalhos da Sociologia da Cultura e da Sociologia do Desporto, visa sublinhar que um elemento cultural, qualquer que ele seja, presta-se a usos diferenciados segundo os grupos sociais que o adoptam. Isto sublinha igualmente que uma prática não é efectuada por si mesma, mas que está muitas vezes associada a um objectivo, mais ou menos definido, que visa justificar o tempo, a energia e os meios que lhe consagramos. Falar de uma pluralidade de usos sociais para as actividades físicas e desportivas, sugere que os objectivos e as justificações variam segundo os contextos, os actores em presença e os motivos/compromissos do momento. Bem entendido, estes usos sociais raramente existem no seu estado “puro”. Cada contexto concreto pode cruzar-se e misturar-se com vários outros, criando várias nuances.
Apesar da importância do karaté ser reconhecida internacionalmente, esta modalidade tem sido considerada como um objecto sem dignificação própria das investigações académicas. Rareiam os estudos que tomam esta modalidade como objecto parcial ou integral de análise. Para além dos estudos serem poucos, os dados oficiais estatísticos são confusos e muito incoerentes. Em nosso entender, a escassez de publicações com informação e dados que ajudem a compreender esta modalidade desportiva-marcial é uma das fragilidades mais significativas.
Procurando contrariar a falta de estudos nesta área temática em Portugal, Abel Figueiredo (Professor do Instituto Politécnico de Viseu) lança-se na elaboração da primeira tese de doutoramento em Ciências do Desporto (na Faculdade de Motricidade Humana), abordando, seriamente, o karaté. Termina a sua obra em 2006. Em 2004, também nós procurámos encetar um novo caminho sobre o assunto. Para isso, inscrevemo-nos no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) para elaborarmos a primeira tese de doutoramento em Sociologia, tendo o karaté (e outras artes marciais) como principal matéria-alvo de estudo. Este trabalho de investigação, que ainda se encontra em curso, pretende introduzir uma perspectiva de análise que não tem sido, na nossa opinião, considerada noutros estudos que se debruçam ou debruçaram sobre o tema: Quais os problemas da difusão do karaté em Portugal? Quais as dificuldades, em termos temporais e espaciais? Qual a génese e o desenvolvimento do karaté em Portugal? Que quadro legislativo existe? Karaté: profissão ou vocação? Qual o perfil sociológico dos praticantes? Quais os motivos que os levaram para esta prática? O que levou a que o karaté esteja mais radicado em algures do que nenhures? Vantagens e desvantagens do benevolato do dirigismo nas organizações ligadas à modalidade? Qual a relação de forças agregadoras e desagregadoras da organização do karaté? Quais as causas e efeitos disso? Que dados numéricos existem sobre a orgânica do karaté e qual a sua regularidade? Por que é tão diminuta a participação das mulheres no karaté? Porquê a necessidade dos praticantes justificarem a autenticidade de um estilo?
As respostas a estas e outras questões estão por esclarecer. Por isso, cada um de nós tem de dar passos explicativos sobre o que ainda não foi explorado. Como disse o Professor João Boaventura (ex-subdirector do Instituto do Desporto de Portugal) «as práticas desportivas constituem, assim, um permanente desafio à prática científica».
Também o Professor Doutor Alan Stoleroff (do ISCTE), orientador da nossa tese, tem contribuído para um melhor conhecimento sobre a prática do karaté, tendo apresentado várias comunicações científicas em congressos ou eventos similares. Em conjunto, e para além da observação-participante, estamos a aplicar um inquérito por questionário, com o objectivo de traçar um perfil sociológico dos praticantes avançados de karaté (cintos castanhos e negros) em Portugal: das representações dos actores, dos significados da sua prática, da identidade social daí derivada, e, assim, das culturas das comunidades de praticantes. Procura-se desenvolver uma análise das motivações e entendimentos dos praticantes.
A realização do Congresso Científico sobre Artes Marciais e Desportos de Combate em Portugal, que teve lugar em Viseu, em Abril de 2007, demonstrou que existem outros (bons) investigadores no terreno.
Para os que pretendem iniciar uma linha de investigação nesta área temática, deixamos aqui algumas referências bibliográficas. Recomendamos também a leitura da Revista de Artes Marciales Asiáticas, promovida pela Universidade de León (Espanha), tendo como director o Professor Doutor Carlos Gutiérrez García.
Referências bibliográficas:
BOAVENTURA, João Correia (1995), Estudo sobre as artes marciais orientais e as organizações não governamentais: mundiais, internacionais e nacionais, Lisboa, Ministério da Educação, Instituto do Desporto, INDESP/IDP.
CLEMENT, Jean-Paul (1980), Etude comparative de trois arts martiaux: Lutte, Judo et Aïkido, Paris, INSEP.
FIGUEIREDo, Abel (2006), A Institucionalização do Karaté: Os Modelos Organizacionais do Karaté em Portugal, UTL/FMH (tese de doutoramento policopiada).
Fonseca, Manuel António (2001), «Estudo exploratório acerca dos motivos para a prática do karaté», in A FCDEF-UP e a Psicologia do Desporto: Estudos sobre Motivação, FCDEF-UP, pp. 25-27.
GARCÍA, Carlos Gutiérrez (2004), Introducción y desarrollo del judo en España (de principios del siglo XX a 1965): el processo de implantación de um método educativo y de combate importado de Japón, Serie Tesis doctorales 2003, Universidad de León.
Gutiérrez, Mikel Pérez (2007), 100 años de artes marciales. Elaboración de un repertorio bibliográfico y análisis bibliométrico de las monografías sobre artes marciales publicadas en España (1906-2006), Universidad de León, Facultad de Ciencias de la Actividad Física y del Deporte, León (policopiado).
ROSA, Vítor (2007), «Encuadramiento Legal e Institucional de las Artes Marciales y Deportes de Combate en Portugal», in Revista de Artes Marciales Asiáticas, Universidade de León (Espanha), vol. 2, n.º 4, Deciembre, pp. 8-31.
ROSA, Vítor (2007), «Estudo Sociológico sobre o Karaté em Portugal», in Actas das VIII Jornadas do Departamento de Sociologia e Centro de Investigação em Sociologia e Antropologia “Augusto da Silva”, sob o título “Questões Sociais Contemporâneas”, Universidade de Évora, pp. 239-252.
ROSA, Vítor (2007), «Estudo Sociológico sobre as Artes Marciais e os Desportos de Combate em Portugal», comunicação apresentada nas IX Jornadas do Departamento de Sociologia, intitulado “Transpondo Fronteiras”, Universidade de Évora, 27 e 28 de Abril de 2007 (policopiada).
ROSA, Vítor (2007), «Estudo Sociológico sobre as Artes Marciais e os Desportos de Combate em Portugal», comunicação apresentada no Congresso Científico de Artes Marciais e Desportos de Combate (1.ª edição), Instituto Politécnico de Viseu, 13 e 14 de Abril de 2007 (policopiada).
STOLEROFF, Alan David (2000), «Profissão ou vocação: instrutores de karaté em Portugal», in Acta do IV Congresso Português de Sociologia, Coimbra, pp. 1-7.
STOLEROFF, Alan David (2004), «Sobre a Produção de Regras da Inter-Acção em Comunidade: O Dojo de Karate», comunicação apresentada no V Congresso Português de Sociologia, realizado de 12 a 15 de Maio, Universidade do Minho, Braga, sob o tema geral Sociedades Contemporâneas: Reflexividade e Acção.
TOKITSU, Kenji (1993), La Voie du Karaté. Pour une théorie des arts martiaux japonais, Paris, Col. Points - Série, Éditions Seuil, Janeiro.
WACQUANT, Loïc (2000), Corps et âme. Carnets ethnographiques d’un apprenti boxeur, Marseille, Agone.
Dalai Lama
terça-feira, 21 de outubro de 2008
17 de Outubro - Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza
A este respeito, vale a pena relembrar as palavras de Eça de Queirós, que no seu tempo dizia: «Ninguém vive na abundância e todos se encontram em dificuldades. Sofre o empregado pela pequenez dos ordenados; sofre o operário pela escassez dos salários; sofre o logista pelos limitados meios de comprar de que dispõe o público; sofre o comerciante pela estagnação das transacções; e sofre o agricultor pela longa crise agrícola que lhe desvaloriza a propriedade. Todos sofrem (...)» (apud. Maria Filomena Mónica, Eça de Queirós, Quetzal Editores, 2001, p. 276.
Continua tudo na mesma. O fosso, apenas, alargou.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Quinta da Regaleira
Dois livros a não perder!
«É sempre uma tolice dar conselhos, mas dar bons conselhos é absolutamente fatal» (Wilde, 2008: 13).
Com prazer e interesse, estou a ler dois livros: “O retrato do Sr. W. H.”, de Óscar Wilde, e “Eça de Queirós”, de Maria Filomena Mónica. Wilde expressa o fascínio que sente pela personalidade de Shakespeare, debruçando-se sobre o enigma da entidade do Sr. W. H., a quem os Sonetos de Shakespeare foram dedicados na primeira edição. Com a socióloga Maria Filomena Mónica somos levados a compreender a vida e a obra do maior e mais popular romancista português, José Maria Eça de Queirós. Fiquei a saber, e não sabia, que A Capital, O Conde de Abranhos ou Alves & C.a não são de Eça. Explico-me melhor: a sua prosa teve a «indesejada» colaboração do seu filho mais velho, José Maria.
sábado, 18 de outubro de 2008
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Revista de Artes Marciales Asiáticas

«La Revista de Artes Marciales Asiáticas es una iniciativa que emprende la Universidad de León en el año 2006, tras la adquisición de los derechos en castellano de la revista norteamericana Journal of Asian Martial Arts, una de las publicaciones de mayor prestigio en el ámbito de las artes marciales a nivel internacional.»
As artes marciais como campo de estudos sociológicos
As chaves da importância do desporto emanam da psicologia dos atletas e espectadores. Do ponto de vista pós-estruturalista e foucaultiano, John Fiske (1992) sugeriu que uma das razões da popularidade do desporto, como actividade contemplativa, é a sua capacidade de desconectar o mecanismo disciplinado do mundo laboral. E já na década de ‘60, Norbert Elias e Eric Dunning empreenderam um exame preliminar dos desportos numa perspectiva parecida à de Fiske (Elias e Dunning, 1986). Versava principalmente sobre o desporto e o controlo social. Mais concretamente, os autores sugeriram que as funções principais de ver ou praticar desporto permitem às pessoas tornarem-se «controladores» ou «controlados» – sejam de classes baixas ou altas –, procurando emoções.
Segundo estes dois autores, o desporto é um antídoto à rotina da vida diária das sociedades industriais avançadas e relativamente “civilizadas”. Para eles, o desporto é mais uma actividade voluntária do que obrigatória. Para isso, esboçam a hipótese de que o desporto implica uma procura de uma actividade emocional agradável que quebre a rotina através do que chamam «motilidade», «sociabilidade» e «mimésis», ou a combinação das três coisas. Quer isto dizer, que o desporto voluntário parece orientar-se em grande medida para a obtenção da satisfação da actividade física e do contacto social que se mantém nos desportos, despertando afectos. Como diz Maguire (1992), o desporto implica toda uma procura da importância das emoções.
Nas sociedades modernas, o desporto adquiriu uma importância a nível individual, local, nacional e internacional. Na valorização concreta do desporto em geral e em particular numa sociedade, o grupo desempenha um papel importante na formação da identidade dos indivíduos. Assim, os desportos modernos são algo mais do que o simples dirimir quem corre mais rápido, salta mais alto ou marca mais golos; são também formas para provar a identidade, da qual as pessoas aprendem o valor social do desporto. Certamente que o desporto não é unicamente importante para provar a identidade individual, mas também para processos afins inter-grupos e para a estrutura hierárquica dos países. Basta para isso pensar nas competições desportivas entre escolas de aldeias ou cidades, equipas e clubes que representam localidades ou cidades em questão e nações em competições com as Olimpíadas e os campeonatos do mundo. Em resumo, e baseado no «património acumulado de interpretações provisoriamente validadas a que se chama teoria» (Almeida e Pinto, 1986: 56), é possível afirmar que o desporto é importante para as sociedades modernas para a identificação dos indivíduos com as colectividades, e para a formação de manifestações de sentimentos colectivos e de equilíbrio do(s) grupo(s).
As pessoas mais comprometidas com o desporto recebem o nome de “fans” e para muitos destes torna-se uma “religião suplente”. Provas disto, temos a atitude reverente de muitos fans às suas equipas e a idolatria de atletas concretos. Também não é invulgar que transformem os seus quartos em autênticos templos. E “celebrar” ou “adorar” uma ou mais colectividades coloca características religiosas, no sentido de Durkheim (1996).
Segundo Diem (1971), todos os desportos têm a sua origem num culto. A análise de Durkheim sobre a «efervescência colectiva» gerada por rituais religiosos dos aborígenes australianos, nos quais viu a raiz da experiência e o conceito do «sagrado», pode transladar mutatis mutandis os sentimentos de emoção e celebração comunitária que constituem a experiência no contexto do desporto moderno.
Norbert Elias (1992: 40), um dos maiores estudiosos da expansão do fenómeno desportivo na era moderna, e que elevou «as funções corporais ao nível do objecto histórico e sociológico» (Le Goff e Truong, 2005: 17), lançou uma questão fundamental: que espécie de sociedade é esta onde cada vez mais pessoas utilizam parte do seu tempo na assistência ou participação de confrontos regulados de habilidades corporais a que chamamos desporto? E procurou a resposta na macro-estrutura social, no amplo conjunto de transformações morais e comportamentais que denominou «processo civilizacional» – que assenta, simplificando, no auto-controlo da violência e na interiorização das emoções – através do estudo dos costumes e das «técnicas do corpo», nomeadamente na Idade Média e no Renascimento.
A ideia de processo em Elias não admite uma sociedade estática. Para ele, a civilização «é cegamente posta em movimento pela dinâmica própria de um tecido de relações, por alterações específicas na maneira como os homens têm de viver uns com os outros» (Elias, 1990: 189). A história das sociedades é, assim, uma constante mudança sem sentido ou racionalidade próprios, é a história de processos variados que têm como principais elementos o indivíduo e o grupo ou cultura no qual está inserido. «O que muda no decurso a que chamamos história são as relações mútuas entre as pessoas e a modelação a que o indivíduo é sujeito dentro delas» (Elias, 1990: 224).
A dinâmica da sociedade, ou seja, a ordem social que sustenta todo o processo, é mantida através de normas externas ao indivíduo segundo padrões legais e morais constituídos. Grosso modo, o que ocorre no processo civilizacional descrito por Elias é que tais normas passam, para os indivíduos, do âmbito cultural ao natural. Por outras palavras, elas são interiorizadas pelos homens e perdem o seu carácter de normas impostas externamente, passam a funcionar como uma espécie de “superego colectivo” regulando as relações sociais.
Com uma formação académica que contava com estudos de Medicina, Psicologia, Filosofia e Sociologia, nas cidades de Breslau, Freiburg e Heidelberg, e com a sua experiência de trabalho nos anos 30, no Instituto de Investigações Sociológicas de Frankfurt, onde é assistente de Karl Mannheim (1893-1947) naquela Universidade, este autor, no caso particular da Sociologia do desporto, vem dizer que esta área está esquecida ou que, pelo menos, não tem merecido a devida atenção. Na página 17 afirma que «está implícita a ideia de que os sociólogos têm esquecido o desporto, principalmente porque só alguns conseguiram distanciar-se o suficiente dos valores dominantes e das formas de pensamento características das sociedades ocidentais, enfim, para terem a capacidade de compreender o significado social do desporto, os problemas que este coloca ou o campo de acção que oferece para a exploração de áreas da estrutura social e do comportamento que, na maior parte, são ignoradas nas teorias sociais».
A desatenção da Sociologia face ao fenómeno desportivo mantém-se actual, bastando para isso ler os argumentos de autores como José Esteves (1967), Gilles Combaz (1992), Salomé Marivoet (1998), Carlos Nolasco (2000), José Raposo (2002), só para dar alguns exemplos. Tanto assim é, que estes autores exortam para que os sociólogos do desporto escrevam textos sobre esta matéria para que o grande público possa beneficiar deste “instrumento” de análise.
Neste sentido, e para terminar este texto, apelo aos cientistas sociais para não ficarem desatentos e para desenvolverem estudos sobre o desporto. As artes marciais e os desportos de combate oferecem matéria riquíssima de investigação.
Referências bibliográficas
RAPOSO, José Vasconcelos (2002), «Obstáculos e exigências do campo profissional da Sociologia do Desporto», in Um Olhar Sociológico sobre o Desporto no Limiar do Século XXI – Actas das III Jornadas de Sociologia do Desporto, organizadas pelo Sesd da Associação Portuguesa de Sociologia e Faculdade de Motricidade Humana, Centro de Estudos e Formação Desportiva, Lisboa, Secretaria de Estado da Juventude e Desporto, pp. 165-173.
NOLASCO, Carlos (2000), «Entre a técnica da força e a força da técnica. A competição jurídica pelo espaço desportivo», in Acta do Congresso Português de Sociologia, pp. 1-11.
MARIVOET, Salomé (1998), Aspectos Sociológicos do Desporto, Lisboa, Livros Horizonte.
Combaz, Gilles (1992), Sociologie de L'Education Physique, Paris, PUF.
LE GOFF, Jacques e TRUONG, Nicholas (2005), Uma história do corpo na idade média, (trad.: Telma Costa), Lisboa, Editorial Teorema.
Almeida, João Ferreira e Pinto, José Madureira (1986), «Da teoria à investigação empírica. Problemas metodológicos gerais», in SILVA, Augusto Santos e PINTO, José Madureira (org.), Metodologia das Ciências Sociais, Porto, Biblioteca das Ciências do Homem, Edições Afrontamento, pp. 55-78.
ELIAS, Norbert e DUNNING, Eric (1992), A Busca da Excitação, Lisboa, Difel.
Diem, C. (1971), Weltgeschichte des Sports, 2 Bände, Stuttgart.
ELIAS, Norbert e DUNNING, Eric (1986), Quest for excitement: sport and leisure in the civilising process, Oxford, Blackwell.
Maguire, Joseph (1992), «Towards a Sociological Theory of Sport and the Emotions: A Process-Sociological Perspective», in Eric Dunning and C. Rojek (eds.), Sport and Leisure in the Civilizing Process: Critique and Counter-Critique, Toronto, University of Toronto Press.
Esteves, José (1967), O Desporto e as Estruturas Sociais, Lisboa, Prelo Editora.
DURKHEIM, Émile (1996), Formas Elementares da Vida Religiosa, Rio de Janeiro, Ed. Martins Fontes.Fiske, John (1992) Power Plays, Power Works, London, Verso.