segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Fim
"Aquele cheiro bom que a terra tem quando a chuva cai"
Em 1991, mais precisamente a 25 de Novembro, veio o cumprimento do serviço militar obrigatório, no Exército Português. Com o número de identificação militar 07628691, Alberto Asor assentou praça no Regimento de Infantaria de Elvas, tal como o seu pai, como soldado raso. A especialidade de Corneteiro, tirá-la-ia em Beja. Não que tivesse a habilidade do seu pai para a música, mas porque sabia umas notas musicais, que aprendera na escola preparatória, numas aulas de ferrinhos e de xilofone. «Tu tens ouvido para a música meu rapaz», disse, por estas ou outras palavras, o autoritário e embirrante sargento Zagalo. «Essa agora!», referiu Alberto Asor. Pouco convencido dos seus dons musicais, lá acabaria por cumprir os obrigatórios nove meses de serviço militar, divididos entre a diária recruta para retemperar o espírito, para o unir no sentimento constitucionalista, e os toques de corneta, com a alvorada, o chamamento para o rancho, o abrir portas das oficinas, a entrada do comandante no quartel, em que toda a tropa ficava em sentido, prestando a devida continência, e outros sons mais que era obrigatório fazer, sobretudo quando estava de serviço.
Terminado o serviço militar, em 24 de Junho de 1992, a cinco dias de cumprir os vinte e dois anos de idade, Alberto Asor candidatou-se e foi seleccionado para trabalhar numa fábrica local, onde produziam componentes electrónicos para automóveis, aviões, etc. A fábrica estava a contratar mão-de-obra para se iniciar uns turnos de dez horas diárias e de três dias de descanso por semana. Feita uma formação inicial, Alberto Asor, contrariado, lá acabaria por ficar nestes turnos. Os horários (diurnos e nocturnos) de dez horas consecutivas deixavam-no de rastos. O descanso de dia é diferente do descanso da noite e vice-versa. Tanto trabalho para pouco dinheiro ao final do mês. Era uma exploração. Depressa constatou que esta vida não o levaria a lado nenhum em termos de objectivos pessoais e profissionais.
Terminado o décimo segundo ano de escolaridade em Junho de 1993, com médias que não envergonham ninguém, pensou em candidatar-se à universidade. Se bem o pensou, melhor o concretizou, pois somos filhos de uma terra dinâmica que quer preparar o futuro. Fizeram-se as provas específicas e o resultado, apesar de satisfatório, não permitiram a entrada no regime público. Sem desanimar, e com o dinheiro que recebia mensalmente da fábrica, pensou em ir para a universidade privada. Possuir um canudo e usar o título de doutor era um dos seus objectivos. A Universidade de Coimbra era a que reunia as melhores condições. A cidade não lhe era desconhecida. Decidiu então apresentar a sua candidatura. Foi aceite. Durante quatro anos (de 1993 a 1997) conseguiu trabalhar e frequentar as aulas do curso de Arquitectura. Com outros colegas que também se encontravam na mesma situação de trabalhador-estudante, conseguiu partilhar o transporte e terminar o curso com uma média excelente. Dezasseis valores. A ajuda da sua mãe foi preciosa, contribuindo para o pagamento de muitas despesas de propinas, gasolina e de material escolar. As ajudas financeiras da Câmara Municipal de Évora e da Fundação Eugénio de Almeida, através de bolsas de estudo, foram também fundamentais para o sucesso escolar.
Terminado o curso surgiram oportunidade de emprego. Diferentes das que até ao então tinha tido. Mais intelectual do que braçal. Uma das primeiras oportunidades que surgiu foi o de trabalhar numa dependência da Caixa Geral de Depósitos, em Beja. Mas, dias antes de entrar ao serviço, desistiu. O mesmo se passou com a OIKOS, organização com dimensão internacional, trabalhando em três continentes e em mais de dezoito países, para colaborar como voluntário em África ou Brasil, as suas duas opções. Pensou que não seria o ideal para começar uma nova etapa da sua vida. Candidatou-se então a uma formação promovida pela Fundação Oliveira Martins, em Lisboa. A formação durou quase seis meses e dava direito à frequência de um estágio profissional, num organismo regional à escolha. A decisão do estágio recaiu num serviço público, de reconhecido valor regional e nacional.
Sem adorno literário de última hora, o trabalho no serviço público, depois de uma meia dúzia de anos (primeiro como estagiário, depois como contratado a termo certo), tornou-se o mais sensaborão do mundo, sem perspectivas e esperanças de avanço na carreira, apesar de ter um mestrado em Direito, numa universidade pública de prestígio. Decidiu, por isso, reiniciar a prática do karaté, na procura de alguma aventura e desafio. Tinha começado a praticar esta arte marcial ou prática desportiva com dezasseis anos de idade para se defender do seu irmão mais velho que lhe costumava dar uns socos e pontapés e também nas zaragatas de rua em que se via envolvido de vez em quando, com o gangue Palmeiras. A interrupção desta prática desportivo-marcial aconteceu quando teve que cumprir o serviço militar obrigatório. Na altura já era cinto castanho na modalidade. Três anos de prática assídua levaram-no a conseguir obter a graduação de cinto negro.
O grupo de praticantes que frequentava o centro de prática combinou um encontro de convívio em Junho de 2004, na praia da Galé, em Melides. No segundo ou terceiro dia do encontro, foi-lhe apresentada uma rapariga, que o arrebatara. A conversa foi leve e inconsequente:
― «Olá, o meu nome é Sofia. E tu, como é que te chamas?».
― «Alberto. Chamo-me Alberto Asor. Vieste acampar e participar nas actividades connosco?».
― «Não. Vi ter com os meus amigos, o Eduardo e Isabel, para vir buscar um computador portátil. Pretendo regressar ainda hoje a Lisboa».
― «É pena. Acho que te ias divertir. Se um dia puderes, passa por Évora para bebermos um café e conversamos um pouco».
Sofia usava um saia comprida, até aos pés, em tons de verde e vermelho, que lhe salientavam as formas de mulher. Alberto Asor ficou deslumbrado. Tinha saudades do sobressalto de descobrir e ser descoberto por alguém.
Na última semana de Julho de 2004, Alberto Asor foi a um estágio de karaté na Praia do Rei, Fonte da Telha. Antes de se iniciar o treino colectivo, verificou que a pessoa que tinha visto na Galé estava na praia, acompanhada de uma menina que aparentava ter quatro anos de idade, certamente sua filha. Entusiasmado por a ver ao longe, pediu ao seu amigo Eduardo, que a conhecia, e que lhe tinha ficado de formatar o disco rígido do seu computador portátil, para voltar a apresentá-la. E assim foi. Apresentaram-se novamente. A conversa foi interrompida de forma brusca, devido ao treino estar a dar início.
No final da aula de karaté Alberto Asor foi ter com ela, e, com um sorriso malandro nos lábios, disse-lhe: «O Eduardo disse-me para eu vir te dar um beijinho e eu vim.» Ela sorriu, um pouco envergonhada. Trocaram umas breves palavras e ele voltou a referir-lhe que se deveriam encontrar para beber um café. O seu desejo foi atendido. Talvez tenha sido o efeito das fumigações dos pauzinhos do Oriente em casa, espiritualizando-a. Uma noite, quando saía de mais um treino de karaté, Alberto Asor foi avisado de que tinha uma visita para si, que gostaria certamente de ver, e que contavam com ele para fazer companhia num jantar de amigos. Curiosamente, o jantar foi no restaurante italiano, na Rua dos Mercadores, a garagem por onde entrava para casa em adolescente, e onde a sua mãe, uma vez mais, tinha encontrado a infelicidade. No final do jantar trocaram-se números de telefone e endereços de correio electrónico.
Dias mais tarde, e na sequência de uma troca de e-mails, combinaram um encontro na mesma praia do treino de karaté. Sofia chegou pontualmente à hora combinada. Depois de dois dedos de conversa, decidiram ir jantar juntos, mas sem antes passar por casa dela para trocar o tailleur por uns jeans e os sapatos de salto alto por uns ténis. Jantaram numa pizzaria. A partir desse dia nunca mais se deixaram. Uma mulher só se deita com um homem por duas razões: amor ou interesse. Alberto Asor tem a certeza que foi amor.
Quando Alberto Asor tinha mais ou menos trinta e dois anos, a sua avó paterna, Ângela, foi visitá-lo a casa. Com palavras simples, trazia uma mensagem consigo. O seu filho, Francisco Asor, gostava de reatar relações com os seus filhos e pedir-lhes perdão pelo mal que lhes fizera. Numa primeira fase apenas três aceitaram a crónica do desabafo e arrependimento. Os dois mais velhos e o mais novo de todos, Hugo Asor. Alberto Asor não queria aceitar, de modo nenhum, as desculpas. Até já não se lembrava de quando o tinha visto pela última vez. Mas, como diz a Bíblia, “perdoai as nossas ofensas, como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. No ano seguinte, e aproveitando a sua vinda de férias a Portugal, lá foi ao seu encontro, de forma a ajustar contas definitivas com este problema e dilema, que o andava a atormentar. Entre uma cerveja fresca e um petisco, o perdão foi aceite. Ficou assente também que não se falaria mais no assunto, sob pena de discutirem sobre coisas passadas, que não interessava remexer, e de se zangarem de vez.
domingo, 7 de dezembro de 2008
“Aquele cheiro bom que a terra tem quando a chuva cai”
A estada de Catarina Asor na vila de Redondo foi bastante curta. Com o regresso a Portugal, sem alternativa e sem esperança, perante o desolado quotidiano de que dispunham, queria mais e melhor. Por isso, rapidamente tomou a decisão de emigrar para a cidade de Hamburgo (Alemanha) para trabalhar num restaurante português. O carimbo do passaporte assinala a passagem pela fronteira do Caia, perto de Elvas, a 12 de Setembro de 1974. Foi acompanhada de uma das suas irmãs mais velhas, Maria Ana de nome, e um dos seus cunhados, Fernando Montenegro, que tinham vindo passar uns dias de férias a Portugal. Se emigrar sozinha já é difícil, quanto mais com a prole. Devido aos condicionalismos, a casa de João Luís, irmão de Catarina Asor, que vivia na vila de Redondo, serviu de porto de abrigo a José Asor, a Carlos Asor e a Alberto Asor por quase três anos.
Nesta vila, cujo nome terá tido origem num penedo redondo onde foi construído o amuramento medieval, todos os dias eram harmoniosos e de brincadeira para estes três irmãos. Mas os domingos eram especiais e eram ansiosamente esperados. De manhã, por volta das onze horas, ia-se à missa na igreja da Matriz de Nossa Senhora da Anunciação, mais para brincar do que para ouvir o sermão do padre. Em verdade, quando os fiéis baixavam a cabeça nas suas obedientes orações, Alberto, os seus irmãos e mais uns companheiros, não resistiam passar por debaixo de umas cadeiras de madeira para espreitar para aquilo que não deveria ser visto. À noite, religiosamente, na casa de um outro irmão de Catarina Asor, era um ágape de pernas de franco em molho de tomate regado não com um bom tinto alentejano, porque a idade não o permitia, mas com um sumo de laranja ou Coca-Cola. Diz-se que o segredo está no tempero. Este prato deixava um sabor antecipado de paraíso.
Ser estrangeiro não é fácil em qualquer país, sobretudo para o migrante que partiu por razões económicas difíceis. Acresce a isto a palavra que não é possível definir a sua origem, mas que temos a satisfação de a ter em nosso vocabulário, sem o perigo de competição por parte de qualquer língua da nossa família latina ― «saudade». Se a ideia inicial era orientar a vida para depois os seus filhos irem ter consigo, logo acabaria por não vingar. E Catarina Asor acabaria por regressar para junto dos seus três filhos. Dias depois desloca-se a Évora, para ir ao encontro de Francisco Asor, que andavam de candeias às avessas. Reatados os trapos, e perdoadas as traições, acabariam por ir morar para a casa da sua sogra, situada na Rua dos Mercadores. A porta de acesso ao interior da casa fazia-se por uma enorme garagem (que anos mais tarde seria transformada num restaurante de comida italiana). Mas foi sol de pouca dura. Acabariam por se separar novamente. Catarina Asor foi viver para casa de uma segunda tia de Francisco Asor, que o tinha criado desde pequeno, de nome Digna, situada na Rua de Valverde, Chafariz d’el Rei.
Com as pazes restabelecidas, projectos e conversas de futuro, beijinhos para a esquerda e para a direita, foram viver para uma paupérrima casa situada no Bairro Nossa Senhora da Glória, Rua da Cooperativa, Pátio da Bandeira, número 2, propriedade da madrinha de baptizo de Alberto Asor. A casa tinha apenas três divisões: uma pequena cozinha, uma sala e um quarto. Casa de banho não havia. Apenas um buraco (para os sólidos e para os líquidos), a um dos cantos do quarto, com uma tampa de madeira, não fosse surgir dali alguma ratazana. Os banhos eram tomados num alguidar. De Verão, tomava-se banho de água fria. De Inverno, a água era colocada numa panela e era aquecida no fogão. Quando o frio apertava a sério, estar em casa ou estar na rua era praticamente semelhante. Eram tempos apartados.
Alberto Asor e os seus irmãos tiveram pouquíssimos brinquedos. O divertimento consistia em brincadeiras de rua com outros companheiros. Era o jogo do berlinde (em vidro, plástico ou esferinhas de metal, semelhantes às que se encontram nos rolamentos), do pião de madeira (depois de envolvido o pião com a guita, a partir do bico (ferrão), o pião é lançado ao chão com força, com o objectivo de o colocar a girar ou bailar o mais tempo possível), dos índios e cóbois, das escondidas, do colher (o verbo colher não deve ser entendido na sua plena literalidade) fruta dos quintais vizinhos, e sorver o néctar guloso que surdia do interior deles, renhidos desafios de futebol, que terminavam invariavelmente nuns joelhos escalavrados, mas nada que a água oxigenada, mercurocromo, algodão, uma caixinha de pensos rápidos não resolvesse. Havia também umas brincadeiras inventadas, como, por exemplo, aos enfermeiros e às enfermeiras, com as meninas que moravam perto de casa, etc. De todos, o passatempo preferido de Alberto Asor era a feitura de uma espécie de carros de rolamentos, permitindo deslizar nas descidas.
O tempo passou, e fosse como fosse, Francisco Asor acabaria por fazer mais uma das suas patifarias. Não foi, aliás, novidade. Todos sabíamos do seu passado, em que o mulheril mais pareciam canários atrás de alpista. Francisco Asor integrava aquele género de homens que não tendo nada de especial, aparentemente, consegue, por isso mesmo, dar a volta à cabeça das mulheres. Já o tinha feito em África, por diversas vezes, e que lhe deu mais dois filhos (Sandra e Francisco) aos três que já tinha. Acabaria por pular a cerca. Desta vez, a nova conquista chamava-se Joana e era assídua presença de casa de Catarina Asor devido à amizade e ao auxílio emocional, pois o seu marido, bastante jovem, e pouco tempo depois de se casarem, tinha falecido num estúpido acidente de motociclo. O jogo de escondidas eternizado não poderia durar. Tudo se sabe, quando o reboliço é muito. Foi motivo de conversa no bairro, pois todos se conheciam. Francisco Asor tinha vários filhos (legítimos e ilegítimos) para alimentar. Mas isso pouco lhe importava. Estava noutra onda. Depois de várias discussões familiares, que não acabaram em agressão física porque Catarina Asor não deixou, acabaria por sair de casa e partir com o seu troféu para Sines, onde pouco tempo depois nasceria mais uma criança, de nome Vanda, para a galeria familiar. Somavam, assim, sete filhos. Cinco rapazes e duas raparigas, todos eles com histórias para contar.
Há anos que ciclicamente Catarina Asor sofria com Francisco Asor. Em silêncio, com a dignidade própria das esposas exemplares que se querem respeitadas. Mas era só o que faltava entrar no quarto da sua própria casa apanhar o marido com uma gaja qualquer, e dizer desculpa, enganei-me no quarto. O que cedo na vida lhe parecera ser eterno escapou-se-lhe por entre os dedos das mãos, como se de areia se tratasse. O divórcio por mútuo consentimento consumar-se-ia a 13 de Dezembro de 1990, na Comarca de Évora, Tribunal Judicial. Francisco Asor nunca mais deu sinal de vida. Um pormenor adicional: os dez contos mensais que ficaram estipulados por lei para pensão de alimentos nunca foram depositados na conta bancária devida. Soube-se mais tarde que tinha ido para França. Não a “salto”, como se fazia antigamente, mas de carro. Os padrinhos do novo rebento foram um casal de franceses que costumavam passar férias em Melides. Decidiram convidá-los para irem com eles e ficarem por lá a trabalhar. Assim foi. Não se sabe que voltas deram, mas acabaram por trocar de mulheres. Sem saberem, estavam a inventar uma nova corrente de troca de parceiros (swing, para utilizarmos um estrangeirismo corrente) como agora se diz. Joana ficou com o francês; Francisco Asor queda-se de amores pela francesa, um pouco mais velha do que ele. A união de facto entre Joana e o francês permaneceu e nasceu mais um filho ou filha.
Catarina Asor, mulher de coragem, ficou, uma vez mais, à sua sorte, não com três, mas com quatro bocas para alimentar, pois o Hugo Asor nasceria em 26 de Abril de 1977. Teve que arranjar trabalho em vários sítios, especialmente em fábricas. E lá foram vivendo, sempre privados de tudo, pois o dinheiro mal dava para comer. Viviam de ajudas familiares, das relações simpáticas de vizinhança e de instituições de caridade.
Como a casa era pequena, com um quarto apenas, todos dormiam juntos. No que a Alberto Asor diz respeito, dormia numa cadeira de madeira, com um ou dois cobertores por baixo, a fazer de colchão, e encostada à cama onde os seus irmãos dormiam para não cair. Mas as dores de coluna continuadas falavam por si.
Com o início do ano escolar, Catarina Asor colocou Carlos Asor na casa da tia Digna, de forma a frequentar a escola primária do Chafariz d’el Rei. Alberto Asor, de vez em quando, permutava com ele, de forma a matar saudades dos restantes irmãos. Alberto Asor detestava ir para casa da sua tia. Ainda por cima ela escondia-lhe as bolachas Maria, não fosse ele comer tudo e não deixar nada para o chá antes de deitar. A tia Digna não tinha televisão. De vez em quando iam para casa de uma vizinha ver um ou outro programa televisivo. À noite, acendia-se o candeeiro a petróleo para se poupar dinheiro. Nas noites de frio preparava-se uma braseira de carvão. Passavam os serões, em silêncio, a ver o carvão a arder. Não se podia mexer muito na braseira não fosse o carvão arder depressa de mais e irem para a cama mais cedo.
Alberto entrou um ano depois na escola primária que o seu irmão Carlos Asor frequentava. Foi um dia emocionante. No primeiro dia de escola foi sozinho, vestido com umas calças azuis claras. Os quatro anos de frequência da escola primária e, consequente aprendizagem, fez-se sem sobressaltos. Apenas se recorda de ter levado duas injustas palmatórias com a velhinha «menina-dos-cinco-olhos», ícone da sala de aula, oriunda da arte de marcenaria. O lamentável acontecimento foi assim: O professor Ferreira uns minutos antes da hora do recreio matinal pediu a todos os alunos que fizessem umas contas de adição e subtracção, previamente colocadas no quadro de ardósia. Como o Alberto as considerou bastante simples, fê-las ainda mesmo de ir para o intervalo, na ingénua esperança de que assim teria mais tempo livre. Quando o recreio terminou, o professor perguntou quem não tinha feito os exercícios solicitados. Uma menina que dividia a secretária levantou o dedo e, sem demoras, acusou Alberto Asor. Verdade seja dita. O professor nem quis ouvir explicações adicionais. Furibundo foi buscar a palmatória e, sem medir a força, zás e zás, deixando transparecer uma certa satisfação. Depois de ter levado as duas reguadas, e perante o olhar perplexo dos colegas, Alberto acabaria por dizer em alta voz que tinha sido acusado injustamente, pois os problemas encomendados tinham sido resolvidos dois ou três minutos antes de ir para o recreio, pois não queria perder pitada do jogo de futebol com os camaradas. Não se recorda de o professor ter lhe pedido desculpa. Pior sorte teve o seu irmão Carlos, que levou um puxão de orelhas de tal forma do professor Pombo que quase ia ficando sem elas. De tal forma, que Catarina Asor tirou-se dos seus cuidados e deslocou-se à escola para pedir explicações ao professor. Foi remédio santo, pois nunca mais se ouviu falar de puxões de orelhas e palmatórias.
Com a ajuda da autarquia local, Catarina Asor conseguiu uma casa num bairro social. Com a chave na mão, a mudança fez-se de imediato, até porque tinham pouca coisa para levar. A nova casa e o bairro ainda nem sequer tinham luz eléctrica a funcionar. Mas mesmo sem luz eléctrica, sempre era melhor estar ali do que na casa que habitavam. Pelo menos a nova casa tinha quartos para todos e uma casa de banho, com lavatório, bidé e banheira. E em vez de um verde musgo em parede de quintal decrépita, uma vista para a Sé de Évora, a maior Catedral medieval do país. Um luxo.
Os bairros sociais têm os seus problemas, levando, não raras vezes, à guetização. Ora, este bairro, designado de “Cruz da Picada”, onde a maioria dos residentes era de classe social baixa, famílias de escassas posses, juntando mais uns ciganos e tendeiros, conseguiu obter, sem dificuldades maiores, a classificação de bairro problemático, marginal e inseguro, nas décadas de oitenta e noventa, levando a que se instalasse uma esquadra da PSP, isto é, da Polícia de Segurança Pública, pois, assim, poupavam nos custos das deslocações dos zelosos agentes que ali acorriam diariamente.
Alberto Asor acabaria por arranjar novos amigos. Cerca de uma vintena, a maioria deles rapazes. Os seus dias eram passados na escola, quando não havia férias, e ao cair da noite juntava-se com os seus amigos nas imediações do bairro para as normais brincadeiras ou simples conversas. Sem premeditação, Alberto Asor e os seus amigos acabariam por formar um gangue, apelidado de “Palmeiras”. Os que levaram esta brincadeira mais a sério chegaram a tatuar nos seus braços uma figura alusiva. «Uns malandros e rufias, a precisam de um bom correctivo», na opinião de muitas pessoas. Mas não. Ainda estavam muito longe dos currículos dos rejeitados protagonistas Renato, Marlene, Flávio, Arnaldo, Pedro, Adelaide e Silvino apresentados por Mário Zambujal na sua “Crónica de Bons Malandros”. Os Palmeiras não faziam mal a ninguém, a não ser umas quantas brigas de rua, com outros rapazes tesos, umas roupas que “voavam” do estendal dos bairros limítrofes mais ricos, e a dança do break-dance, que durante um período de tempo esteve na moda.
As “más” companhias, e a pouca sensibilidade para os sons e os sentidos das palavras, fizeram com que Carlos Asor e Alberto Asor perdessem o ano escolar do sétimo ano por excesso de faltas. Como o dinheiro não esticava, Catarina Asor acabaria por colocar, primeiro um e depois outro, num curso técnico-profissional, promovido pelo Centro de Emprego local. O curso era de Serralharia Civil (Sector de Actividade: Metalomecânica). Para além de atribuir as habilitações escolares até ao nono ano de escolaridade, permitia que o trabalhador exercesse a sua actividade em todos ramos da indústria da construção e reparação de instalações, estruturas e equipamentos metálicos, executando a traçagem, marcação, corte, enformação, montagem e ligação de elementos metálicos segundo os imperativos das construções. Numa palavra, juízo naquelas cabeças e dinheiro em casa, pensava Catarina Asor. O curso de três anos concluiu-se com aprovação para ambos. Alberto Asor concluiu o seu a 23 de Dezembro de 1988. Mas também criou a vontade de Alberto Asor sair daquela vida difícil e enfastiada de operário fabril, de fato-de-macaco sujo de óleo e de baixo salário. Com vontade de dar outro rumo à sua vida, acabaria por matricular-se no décimo ano de escolaridade e estudar à noite para continuar a sua formação e educação.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
“Aquele cheiro bom que a terra tem quando a chuva cai”
1.ª Parte
A viagem “turística” de barco, propulsionada por turbinas a vapor, demorou vinte e dois dias. O desembarque foi feito no porto da cidade da Beira (o maior e mais bem apetrechado porto da África Oriental, procurado por navios de todo o Mundo, que cruzavam as rotas do Índico). À sua espera, estava Francisco Asor, seu progenitor, vinte e oito anos, olhos castanhos-claros, homem pequeno, com pouco mais de um metro e cinquenta, com o sexto ano de escolaridade, empregado de comércio, boémio, empertigado, marido pouco dedicado e devoto. Tinha migrado, por necessidade, e em demanda de novos horizontes longe do velho continente, uns meses antes para a cidade da Beira, numa viagem de avião que conseguiu através da firma onde o seu irmão mais novo trabalhava e a pagar em suaves prestações. Labutava para o Grupo Entreposto Comercial de Moçambique, numa secção de peças agrícolas das marcas Massey-Ferguson, Mercedes e Peugeot.
Quando residia em Évora, integrava um grupo de músicos amadores. Tocava viola, o que, aliás, lhe deu a alcunha de “Chico da Viola”. Chico da Viola travou conhecimentos com Catarina Asor, de dezasseis anos de idade, numa das suas várias idas e vindas à vila de Redondo para abrilhantar os bailes, uma alternativa às pistas de dança das discotecas. Com a quarta classe, Catarina Asor, menina bem-comportada, foi educada num convento de freiras na vila de Redondo, situada a trinta e cinco quilómetros de Évora. Viu-se privada, infelizmente, da presença de sua mãe, Mariana Rosa Rilhas, muito cedo. Tinha apenas seis anos de idade quando ela lhe faleceu e vinte e um anos de idade quando o corpo do seu pai, José Maria Valadas, desceu à terra e a sua alma aos céus.
Francisco Asor e Catarina Asor acabariam por se juntar (união de facto, como hoje se diz) em Junho de 1966, ele com vinte anos de idade, ela com dezassete, e por casar a 8 de Dezembro desse mesmo ano, com pompa e circunstância e promessas mais ou menos para durar, na Igreja do Carmo. Deste casamento nasceriam quatro rapazes, orgulho de qualquer mãe: José Asor (Setembro,1967), Carlos Asor (Fevereiro, 1969), Alberto Asor (1970) e, muito mais tarde, Hugo Asor (Abril, 1977).
Durante quatro anos, a cidade da Beira, que os portugueses crismaram de «Cidade de Futuro», foi a nova casa de Alberto Asor. Da sua vivência nesta cidade pouco se recorda. Apenas alguns fragmentos de memória, de criança simplesmente: uma praia, uma casa com garagem, um “mainato” (criado), de nome Alberto, que tomava conta de si e dos seus dois irmãos mais velhos quando os seus pais iam trabalhar (o seu pai no Entreposto; a sua mãe numa loja da “Casa Bulha”, na costura de vestidos de noiva, esse), de ter levado uma dolorosa vacina no braço, de ver pessoas a dançarem numa festa, que mais tarde lhe disseram ser a comemoração do Carnaval, de pessoas, sobretudo africanos, a comerem gafanhotos praticamente vivos, de um enorme sapo que saltitava por uma garagem, de umas quantas tropelias que cometera, enquanto actor inconsciente de três anos a caminho dos quatro e... “aquele cheiro bom que a terra tem quando a chuva cai”, como diria o poeta Reinaldo Ferreira. Outras recordações não são de Alberto Asor. Foram relatadas pelos seus irmãos e desabafos de sua mãe.
Sem tibiezas e cerimónias, Alberto Asor e a sua família estavam longe das lutas fratricidas que se travavam neste e noutros territórios africanos desde 1961, com a vontade dos povos de Moçambique e Angola se libertarem do obstinado jugo colonialista português e se constituírem em países independentes.
Com a alma em desespero e o coração a “sangrar”, muitos portugueses regressaram a Portugal com o 25 de Abril de 1974, também chamada de Revolução dos Cravos, em que um golpe de estado militar, conduzido, essencialmente, pelos oficiais intermédios da hierarquia militar (o Movimento das Forças Armadas), na sua maior parte capitães que tinham participado na Guerra Colonial, derrubou o regime político que vigorava em Portugal desde 1926. Dez mil mortos e trinta mil feridos foi o saldo de treze anos de guerra do Ultramar, marcando uma página negra da história de Portugal.
Em finais de Agosto desse ano, Alberto Asor, sua mãe e irmãos regressariam a Portugal, não no paquete “Império”, uma vez que a sua última viagem foi realizada em Dezembro de 1973, mas de avião. Não trouxeram nada na bagagem, a não ser a eterna saudade e o modo de vida e de agir das gentes que passaram por estas terras. Ficaram em casa da sua tia Digna, mulher de António Artur, irmão de Francisco Asor, na Malveira. Dias depois, João Luís, irmão de Catarina Asor, foi buscá-los de carro e transportou-os para a sua casa, em Redondo. Francisco Asor regressaria em 1975, pois de tantas escapadelas, trafulhice, negócios duvidosos, e poucos remorsos, já não vivia com eles fazia já algum tempo.
Deixa-se aqui registado uma letra musical de João Maria Tudela sobre a cidade da Beira:
Fiz da Beira o meu delisco,
1 Os paquetes mais importantes e modernos da CNN, em 1970/71, eram o “Infante Dom Henrique”, o “Vera Cruz” e o “Santa Maria”. O paquete “Império” fazia parte de uma parelha com o “Pátria“. Praticamente idênticos, o “Pátria“ era seis meses mais velho (13.196 toneladas) do que o “Império” (13.186 toneladas), que fez a sua viagem inaugural para Moçambique em 20 de Julho de 1948. Tinham 161,54 metros de comprimento e 20,83 metros de largura e atingiam a velocidade de cruzeiro de dezoito nós. A tripulação era de cento de sessenta e sete elementos e possuía acomodações para levar até setecentos e noventa e oito passageiros: cento e catorze em primeira classe, cento e sessenta em segunda, cento e dezoito em terceira e quatrocentos e seis em terceira “suplementar“. Suplementar, quer dizer “muito mal instalados” (transporte de tropas).
2 Com um território com mais de setecentos e oitenta mil quilómetros quadrados, com quatro mil duzentos e cinquenta quilómetros de fronteira terrestre, tanzaniana, malawiana, zambiana, rodesiana, sul-africana e suazi, com uma costa de dois mil novecentos e setenta e cinco quilómetros sobre o Oceano Índico, Moçambique era uma das mais portentosas províncias portuguesas. A distância entre a sua capital política, Lourenço Marques (hoje Maputo), próximo da fronteira sul, e a sua capital militar, Nampula, mais a norte, percorria-se em cerca de duas horas em aviões a jacto, tanto como entre Lisboa e Paris. Nampula ficava ainda a quatrocentos quilómetros da fronteira setentrional ― o rio Rovuma. Na configuração moçambicana distinguia-se o extenso Norte, com o Niassa, Cabo Delgado, Moçambique e Zambézia; o Centro da Beira e de Vila Pery, verdadeiro coração geográfico, estendendo-se pelo amplo saliente de Tete; e a Sul, mais estreito, o conjunto de Gaza, Inhambane e Lourenço Marques. Cerca de quarenta e quatro porcento de zona litoral, abaixo dos duzentos metros de altitude, quarenta e três porcento de planaltos, entre os duzentos e os mil metros, e os restantes treze porcento de montanha. Uma costa onde se inseriam baías e portos de óptimas condições naturais, praias excelentes e algumas ilhas, que, além da sua beleza ímpar, constituíam padrões de uma história, na qual predominava o sentido de grandeza. A prodigalidade em recursos naturais e o esforço no sector do mercado estavam a conduzir a um desenvolvimento rápido. Moçambique estava bem no começo dos anos setenta, no início do seu milagre económico.