A estada de Catarina Asor na vila de Redondo foi bastante curta. Com o regresso a Portugal, sem alternativa e sem esperança, perante o desolado quotidiano de que dispunham, queria mais e melhor. Por isso, rapidamente tomou a decisão de emigrar para a cidade de Hamburgo (Alemanha) para trabalhar num restaurante português. O carimbo do passaporte assinala a passagem pela fronteira do Caia, perto de Elvas, a 12 de Setembro de 1974. Foi acompanhada de uma das suas irmãs mais velhas, Maria Ana de nome, e um dos seus cunhados, Fernando Montenegro, que tinham vindo passar uns dias de férias a Portugal. Se emigrar sozinha já é difícil, quanto mais com a prole. Devido aos condicionalismos, a casa de João Luís, irmão de Catarina Asor, que vivia na vila de Redondo, serviu de porto de abrigo a José Asor, a Carlos Asor e a Alberto Asor por quase três anos.
Nesta vila, cujo nome terá tido origem num penedo redondo onde foi construído o amuramento medieval, todos os dias eram harmoniosos e de brincadeira para estes três irmãos. Mas os domingos eram especiais e eram ansiosamente esperados. De manhã, por volta das onze horas, ia-se à missa na igreja da Matriz de Nossa Senhora da Anunciação, mais para brincar do que para ouvir o sermão do padre. Em verdade, quando os fiéis baixavam a cabeça nas suas obedientes orações, Alberto, os seus irmãos e mais uns companheiros, não resistiam passar por debaixo de umas cadeiras de madeira para espreitar para aquilo que não deveria ser visto. À noite, religiosamente, na casa de um outro irmão de Catarina Asor, era um ágape de pernas de franco em molho de tomate regado não com um bom tinto alentejano, porque a idade não o permitia, mas com um sumo de laranja ou Coca-Cola. Diz-se que o segredo está no tempero. Este prato deixava um sabor antecipado de paraíso.
Ser estrangeiro não é fácil em qualquer país, sobretudo para o migrante que partiu por razões económicas difíceis. Acresce a isto a palavra que não é possível definir a sua origem, mas que temos a satisfação de a ter em nosso vocabulário, sem o perigo de competição por parte de qualquer língua da nossa família latina ― «saudade». Se a ideia inicial era orientar a vida para depois os seus filhos irem ter consigo, logo acabaria por não vingar. E Catarina Asor acabaria por regressar para junto dos seus três filhos. Dias depois desloca-se a Évora, para ir ao encontro de Francisco Asor, que andavam de candeias às avessas. Reatados os trapos, e perdoadas as traições, acabariam por ir morar para a casa da sua sogra, situada na Rua dos Mercadores. A porta de acesso ao interior da casa fazia-se por uma enorme garagem (que anos mais tarde seria transformada num restaurante de comida italiana). Mas foi sol de pouca dura. Acabariam por se separar novamente. Catarina Asor foi viver para casa de uma segunda tia de Francisco Asor, que o tinha criado desde pequeno, de nome Digna, situada na Rua de Valverde, Chafariz d’el Rei.
Com as pazes restabelecidas, projectos e conversas de futuro, beijinhos para a esquerda e para a direita, foram viver para uma paupérrima casa situada no Bairro Nossa Senhora da Glória, Rua da Cooperativa, Pátio da Bandeira, número 2, propriedade da madrinha de baptizo de Alberto Asor. A casa tinha apenas três divisões: uma pequena cozinha, uma sala e um quarto. Casa de banho não havia. Apenas um buraco (para os sólidos e para os líquidos), a um dos cantos do quarto, com uma tampa de madeira, não fosse surgir dali alguma ratazana. Os banhos eram tomados num alguidar. De Verão, tomava-se banho de água fria. De Inverno, a água era colocada numa panela e era aquecida no fogão. Quando o frio apertava a sério, estar em casa ou estar na rua era praticamente semelhante. Eram tempos apartados.
Alberto Asor e os seus irmãos tiveram pouquíssimos brinquedos. O divertimento consistia em brincadeiras de rua com outros companheiros. Era o jogo do berlinde (em vidro, plástico ou esferinhas de metal, semelhantes às que se encontram nos rolamentos), do pião de madeira (depois de envolvido o pião com a guita, a partir do bico (ferrão), o pião é lançado ao chão com força, com o objectivo de o colocar a girar ou bailar o mais tempo possível), dos índios e cóbois, das escondidas, do colher (o verbo colher não deve ser entendido na sua plena literalidade) fruta dos quintais vizinhos, e sorver o néctar guloso que surdia do interior deles, renhidos desafios de futebol, que terminavam invariavelmente nuns joelhos escalavrados, mas nada que a água oxigenada, mercurocromo, algodão, uma caixinha de pensos rápidos não resolvesse. Havia também umas brincadeiras inventadas, como, por exemplo, aos enfermeiros e às enfermeiras, com as meninas que moravam perto de casa, etc. De todos, o passatempo preferido de Alberto Asor era a feitura de uma espécie de carros de rolamentos, permitindo deslizar nas descidas.
O tempo passou, e fosse como fosse, Francisco Asor acabaria por fazer mais uma das suas patifarias. Não foi, aliás, novidade. Todos sabíamos do seu passado, em que o mulheril mais pareciam canários atrás de alpista. Francisco Asor integrava aquele género de homens que não tendo nada de especial, aparentemente, consegue, por isso mesmo, dar a volta à cabeça das mulheres. Já o tinha feito em África, por diversas vezes, e que lhe deu mais dois filhos (Sandra e Francisco) aos três que já tinha. Acabaria por pular a cerca. Desta vez, a nova conquista chamava-se Joana e era assídua presença de casa de Catarina Asor devido à amizade e ao auxílio emocional, pois o seu marido, bastante jovem, e pouco tempo depois de se casarem, tinha falecido num estúpido acidente de motociclo. O jogo de escondidas eternizado não poderia durar. Tudo se sabe, quando o reboliço é muito. Foi motivo de conversa no bairro, pois todos se conheciam. Francisco Asor tinha vários filhos (legítimos e ilegítimos) para alimentar. Mas isso pouco lhe importava. Estava noutra onda. Depois de várias discussões familiares, que não acabaram em agressão física porque Catarina Asor não deixou, acabaria por sair de casa e partir com o seu troféu para Sines, onde pouco tempo depois nasceria mais uma criança, de nome Vanda, para a galeria familiar. Somavam, assim, sete filhos. Cinco rapazes e duas raparigas, todos eles com histórias para contar.
Há anos que ciclicamente Catarina Asor sofria com Francisco Asor. Em silêncio, com a dignidade própria das esposas exemplares que se querem respeitadas. Mas era só o que faltava entrar no quarto da sua própria casa apanhar o marido com uma gaja qualquer, e dizer desculpa, enganei-me no quarto. O que cedo na vida lhe parecera ser eterno escapou-se-lhe por entre os dedos das mãos, como se de areia se tratasse. O divórcio por mútuo consentimento consumar-se-ia a 13 de Dezembro de 1990, na Comarca de Évora, Tribunal Judicial. Francisco Asor nunca mais deu sinal de vida. Um pormenor adicional: os dez contos mensais que ficaram estipulados por lei para pensão de alimentos nunca foram depositados na conta bancária devida. Soube-se mais tarde que tinha ido para França. Não a “salto”, como se fazia antigamente, mas de carro. Os padrinhos do novo rebento foram um casal de franceses que costumavam passar férias em Melides. Decidiram convidá-los para irem com eles e ficarem por lá a trabalhar. Assim foi. Não se sabe que voltas deram, mas acabaram por trocar de mulheres. Sem saberem, estavam a inventar uma nova corrente de troca de parceiros (swing, para utilizarmos um estrangeirismo corrente) como agora se diz. Joana ficou com o francês; Francisco Asor queda-se de amores pela francesa, um pouco mais velha do que ele. A união de facto entre Joana e o francês permaneceu e nasceu mais um filho ou filha.
Catarina Asor, mulher de coragem, ficou, uma vez mais, à sua sorte, não com três, mas com quatro bocas para alimentar, pois o Hugo Asor nasceria em 26 de Abril de 1977. Teve que arranjar trabalho em vários sítios, especialmente em fábricas. E lá foram vivendo, sempre privados de tudo, pois o dinheiro mal dava para comer. Viviam de ajudas familiares, das relações simpáticas de vizinhança e de instituições de caridade.
Como a casa era pequena, com um quarto apenas, todos dormiam juntos. No que a Alberto Asor diz respeito, dormia numa cadeira de madeira, com um ou dois cobertores por baixo, a fazer de colchão, e encostada à cama onde os seus irmãos dormiam para não cair. Mas as dores de coluna continuadas falavam por si.
Com o início do ano escolar, Catarina Asor colocou Carlos Asor na casa da tia Digna, de forma a frequentar a escola primária do Chafariz d’el Rei. Alberto Asor, de vez em quando, permutava com ele, de forma a matar saudades dos restantes irmãos. Alberto Asor detestava ir para casa da sua tia. Ainda por cima ela escondia-lhe as bolachas Maria, não fosse ele comer tudo e não deixar nada para o chá antes de deitar. A tia Digna não tinha televisão. De vez em quando iam para casa de uma vizinha ver um ou outro programa televisivo. À noite, acendia-se o candeeiro a petróleo para se poupar dinheiro. Nas noites de frio preparava-se uma braseira de carvão. Passavam os serões, em silêncio, a ver o carvão a arder. Não se podia mexer muito na braseira não fosse o carvão arder depressa de mais e irem para a cama mais cedo.
Alberto entrou um ano depois na escola primária que o seu irmão Carlos Asor frequentava. Foi um dia emocionante. No primeiro dia de escola foi sozinho, vestido com umas calças azuis claras. Os quatro anos de frequência da escola primária e, consequente aprendizagem, fez-se sem sobressaltos. Apenas se recorda de ter levado duas injustas palmatórias com a velhinha «menina-dos-cinco-olhos», ícone da sala de aula, oriunda da arte de marcenaria. O lamentável acontecimento foi assim: O professor Ferreira uns minutos antes da hora do recreio matinal pediu a todos os alunos que fizessem umas contas de adição e subtracção, previamente colocadas no quadro de ardósia. Como o Alberto as considerou bastante simples, fê-las ainda mesmo de ir para o intervalo, na ingénua esperança de que assim teria mais tempo livre. Quando o recreio terminou, o professor perguntou quem não tinha feito os exercícios solicitados. Uma menina que dividia a secretária levantou o dedo e, sem demoras, acusou Alberto Asor. Verdade seja dita. O professor nem quis ouvir explicações adicionais. Furibundo foi buscar a palmatória e, sem medir a força, zás e zás, deixando transparecer uma certa satisfação. Depois de ter levado as duas reguadas, e perante o olhar perplexo dos colegas, Alberto acabaria por dizer em alta voz que tinha sido acusado injustamente, pois os problemas encomendados tinham sido resolvidos dois ou três minutos antes de ir para o recreio, pois não queria perder pitada do jogo de futebol com os camaradas. Não se recorda de o professor ter lhe pedido desculpa. Pior sorte teve o seu irmão Carlos, que levou um puxão de orelhas de tal forma do professor Pombo que quase ia ficando sem elas. De tal forma, que Catarina Asor tirou-se dos seus cuidados e deslocou-se à escola para pedir explicações ao professor. Foi remédio santo, pois nunca mais se ouviu falar de puxões de orelhas e palmatórias.
Com a ajuda da autarquia local, Catarina Asor conseguiu uma casa num bairro social. Com a chave na mão, a mudança fez-se de imediato, até porque tinham pouca coisa para levar. A nova casa e o bairro ainda nem sequer tinham luz eléctrica a funcionar. Mas mesmo sem luz eléctrica, sempre era melhor estar ali do que na casa que habitavam. Pelo menos a nova casa tinha quartos para todos e uma casa de banho, com lavatório, bidé e banheira. E em vez de um verde musgo em parede de quintal decrépita, uma vista para a Sé de Évora, a maior Catedral medieval do país. Um luxo.
Os bairros sociais têm os seus problemas, levando, não raras vezes, à guetização. Ora, este bairro, designado de “Cruz da Picada”, onde a maioria dos residentes era de classe social baixa, famílias de escassas posses, juntando mais uns ciganos e tendeiros, conseguiu obter, sem dificuldades maiores, a classificação de bairro problemático, marginal e inseguro, nas décadas de oitenta e noventa, levando a que se instalasse uma esquadra da PSP, isto é, da Polícia de Segurança Pública, pois, assim, poupavam nos custos das deslocações dos zelosos agentes que ali acorriam diariamente.
Alberto Asor acabaria por arranjar novos amigos. Cerca de uma vintena, a maioria deles rapazes. Os seus dias eram passados na escola, quando não havia férias, e ao cair da noite juntava-se com os seus amigos nas imediações do bairro para as normais brincadeiras ou simples conversas. Sem premeditação, Alberto Asor e os seus amigos acabariam por formar um gangue, apelidado de “Palmeiras”. Os que levaram esta brincadeira mais a sério chegaram a tatuar nos seus braços uma figura alusiva. «Uns malandros e rufias, a precisam de um bom correctivo», na opinião de muitas pessoas. Mas não. Ainda estavam muito longe dos currículos dos rejeitados protagonistas Renato, Marlene, Flávio, Arnaldo, Pedro, Adelaide e Silvino apresentados por Mário Zambujal na sua “Crónica de Bons Malandros”. Os Palmeiras não faziam mal a ninguém, a não ser umas quantas brigas de rua, com outros rapazes tesos, umas roupas que “voavam” do estendal dos bairros limítrofes mais ricos, e a dança do break-dance, que durante um período de tempo esteve na moda.
As “más” companhias, e a pouca sensibilidade para os sons e os sentidos das palavras, fizeram com que Carlos Asor e Alberto Asor perdessem o ano escolar do sétimo ano por excesso de faltas. Como o dinheiro não esticava, Catarina Asor acabaria por colocar, primeiro um e depois outro, num curso técnico-profissional, promovido pelo Centro de Emprego local. O curso era de Serralharia Civil (Sector de Actividade: Metalomecânica). Para além de atribuir as habilitações escolares até ao nono ano de escolaridade, permitia que o trabalhador exercesse a sua actividade em todos ramos da indústria da construção e reparação de instalações, estruturas e equipamentos metálicos, executando a traçagem, marcação, corte, enformação, montagem e ligação de elementos metálicos segundo os imperativos das construções. Numa palavra, juízo naquelas cabeças e dinheiro em casa, pensava Catarina Asor. O curso de três anos concluiu-se com aprovação para ambos. Alberto Asor concluiu o seu a 23 de Dezembro de 1988. Mas também criou a vontade de Alberto Asor sair daquela vida difícil e enfastiada de operário fabril, de fato-de-macaco sujo de óleo e de baixo salário. Com vontade de dar outro rumo à sua vida, acabaria por matricular-se no décimo ano de escolaridade e estudar à noite para continuar a sua formação e educação.
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