3.ª Parte
Em 1991, mais precisamente a 25 de Novembro, veio o cumprimento do serviço militar obrigatório, no Exército Português. Com o número de identificação militar 07628691, Alberto Asor assentou praça no Regimento de Infantaria de Elvas, tal como o seu pai, como soldado raso. A especialidade de Corneteiro, tirá-la-ia em Beja. Não que tivesse a habilidade do seu pai para a música, mas porque sabia umas notas musicais, que aprendera na escola preparatória, numas aulas de ferrinhos e de xilofone. «Tu tens ouvido para a música meu rapaz», disse, por estas ou outras palavras, o autoritário e embirrante sargento Zagalo. «Essa agora!», referiu Alberto Asor. Pouco convencido dos seus dons musicais, lá acabaria por cumprir os obrigatórios nove meses de serviço militar, divididos entre a diária recruta para retemperar o espírito, para o unir no sentimento constitucionalista, e os toques de corneta, com a alvorada, o chamamento para o rancho, o abrir portas das oficinas, a entrada do comandante no quartel, em que toda a tropa ficava em sentido, prestando a devida continência, e outros sons mais que era obrigatório fazer, sobretudo quando estava de serviço.
Terminado o serviço militar, em 24 de Junho de 1992, a cinco dias de cumprir os vinte e dois anos de idade, Alberto Asor candidatou-se e foi seleccionado para trabalhar numa fábrica local, onde produziam componentes electrónicos para automóveis, aviões, etc. A fábrica estava a contratar mão-de-obra para se iniciar uns turnos de dez horas diárias e de três dias de descanso por semana. Feita uma formação inicial, Alberto Asor, contrariado, lá acabaria por ficar nestes turnos. Os horários (diurnos e nocturnos) de dez horas consecutivas deixavam-no de rastos. O descanso de dia é diferente do descanso da noite e vice-versa. Tanto trabalho para pouco dinheiro ao final do mês. Era uma exploração. Depressa constatou que esta vida não o levaria a lado nenhum em termos de objectivos pessoais e profissionais.
Terminado o décimo segundo ano de escolaridade em Junho de 1993, com médias que não envergonham ninguém, pensou em candidatar-se à universidade. Se bem o pensou, melhor o concretizou, pois somos filhos de uma terra dinâmica que quer preparar o futuro. Fizeram-se as provas específicas e o resultado, apesar de satisfatório, não permitiram a entrada no regime público. Sem desanimar, e com o dinheiro que recebia mensalmente da fábrica, pensou em ir para a universidade privada. Possuir um canudo e usar o título de doutor era um dos seus objectivos. A Universidade de Coimbra era a que reunia as melhores condições. A cidade não lhe era desconhecida. Decidiu então apresentar a sua candidatura. Foi aceite. Durante quatro anos (de 1993 a 1997) conseguiu trabalhar e frequentar as aulas do curso de Arquitectura. Com outros colegas que também se encontravam na mesma situação de trabalhador-estudante, conseguiu partilhar o transporte e terminar o curso com uma média excelente. Dezasseis valores. A ajuda da sua mãe foi preciosa, contribuindo para o pagamento de muitas despesas de propinas, gasolina e de material escolar. As ajudas financeiras da Câmara Municipal de Évora e da Fundação Eugénio de Almeida, através de bolsas de estudo, foram também fundamentais para o sucesso escolar.
Terminado o curso surgiram oportunidade de emprego. Diferentes das que até ao então tinha tido. Mais intelectual do que braçal. Uma das primeiras oportunidades que surgiu foi o de trabalhar numa dependência da Caixa Geral de Depósitos, em Beja. Mas, dias antes de entrar ao serviço, desistiu. O mesmo se passou com a OIKOS, organização com dimensão internacional, trabalhando em três continentes e em mais de dezoito países, para colaborar como voluntário em África ou Brasil, as suas duas opções. Pensou que não seria o ideal para começar uma nova etapa da sua vida. Candidatou-se então a uma formação promovida pela Fundação Oliveira Martins, em Lisboa. A formação durou quase seis meses e dava direito à frequência de um estágio profissional, num organismo regional à escolha. A decisão do estágio recaiu num serviço público, de reconhecido valor regional e nacional.
Sem adorno literário de última hora, o trabalho no serviço público, depois de uma meia dúzia de anos (primeiro como estagiário, depois como contratado a termo certo), tornou-se o mais sensaborão do mundo, sem perspectivas e esperanças de avanço na carreira, apesar de ter um mestrado em Direito, numa universidade pública de prestígio. Decidiu, por isso, reiniciar a prática do karaté, na procura de alguma aventura e desafio. Tinha começado a praticar esta arte marcial ou prática desportiva com dezasseis anos de idade para se defender do seu irmão mais velho que lhe costumava dar uns socos e pontapés e também nas zaragatas de rua em que se via envolvido de vez em quando, com o gangue Palmeiras. A interrupção desta prática desportivo-marcial aconteceu quando teve que cumprir o serviço militar obrigatório. Na altura já era cinto castanho na modalidade. Três anos de prática assídua levaram-no a conseguir obter a graduação de cinto negro.
O grupo de praticantes que frequentava o centro de prática combinou um encontro de convívio em Junho de 2004, na praia da Galé, em Melides. No segundo ou terceiro dia do encontro, foi-lhe apresentada uma rapariga, que o arrebatara. A conversa foi leve e inconsequente:
― «Olá, o meu nome é Sofia. E tu, como é que te chamas?».
― «Alberto. Chamo-me Alberto Asor. Vieste acampar e participar nas actividades connosco?».
― «Não. Vi ter com os meus amigos, o Eduardo e Isabel, para vir buscar um computador portátil. Pretendo regressar ainda hoje a Lisboa».
― «É pena. Acho que te ias divertir. Se um dia puderes, passa por Évora para bebermos um café e conversamos um pouco».
Sofia usava um saia comprida, até aos pés, em tons de verde e vermelho, que lhe salientavam as formas de mulher. Alberto Asor ficou deslumbrado. Tinha saudades do sobressalto de descobrir e ser descoberto por alguém.
Na última semana de Julho de 2004, Alberto Asor foi a um estágio de karaté na Praia do Rei, Fonte da Telha. Antes de se iniciar o treino colectivo, verificou que a pessoa que tinha visto na Galé estava na praia, acompanhada de uma menina que aparentava ter quatro anos de idade, certamente sua filha. Entusiasmado por a ver ao longe, pediu ao seu amigo Eduardo, que a conhecia, e que lhe tinha ficado de formatar o disco rígido do seu computador portátil, para voltar a apresentá-la. E assim foi. Apresentaram-se novamente. A conversa foi interrompida de forma brusca, devido ao treino estar a dar início.
No final da aula de karaté Alberto Asor foi ter com ela, e, com um sorriso malandro nos lábios, disse-lhe: «O Eduardo disse-me para eu vir te dar um beijinho e eu vim.» Ela sorriu, um pouco envergonhada. Trocaram umas breves palavras e ele voltou a referir-lhe que se deveriam encontrar para beber um café. O seu desejo foi atendido. Talvez tenha sido o efeito das fumigações dos pauzinhos do Oriente em casa, espiritualizando-a. Uma noite, quando saía de mais um treino de karaté, Alberto Asor foi avisado de que tinha uma visita para si, que gostaria certamente de ver, e que contavam com ele para fazer companhia num jantar de amigos. Curiosamente, o jantar foi no restaurante italiano, na Rua dos Mercadores, a garagem por onde entrava para casa em adolescente, e onde a sua mãe, uma vez mais, tinha encontrado a infelicidade. No final do jantar trocaram-se números de telefone e endereços de correio electrónico.
Dias mais tarde, e na sequência de uma troca de e-mails, combinaram um encontro na mesma praia do treino de karaté. Sofia chegou pontualmente à hora combinada. Depois de dois dedos de conversa, decidiram ir jantar juntos, mas sem antes passar por casa dela para trocar o tailleur por uns jeans e os sapatos de salto alto por uns ténis. Jantaram numa pizzaria. A partir desse dia nunca mais se deixaram. Uma mulher só se deita com um homem por duas razões: amor ou interesse. Alberto Asor tem a certeza que foi amor.
Quando Alberto Asor tinha mais ou menos trinta e dois anos, a sua avó paterna, Ângela, foi visitá-lo a casa. Com palavras simples, trazia uma mensagem consigo. O seu filho, Francisco Asor, gostava de reatar relações com os seus filhos e pedir-lhes perdão pelo mal que lhes fizera. Numa primeira fase apenas três aceitaram a crónica do desabafo e arrependimento. Os dois mais velhos e o mais novo de todos, Hugo Asor. Alberto Asor não queria aceitar, de modo nenhum, as desculpas. Até já não se lembrava de quando o tinha visto pela última vez. Mas, como diz a Bíblia, “perdoai as nossas ofensas, como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. No ano seguinte, e aproveitando a sua vinda de férias a Portugal, lá foi ao seu encontro, de forma a ajustar contas definitivas com este problema e dilema, que o andava a atormentar. Entre uma cerveja fresca e um petisco, o perdão foi aceite. Ficou assente também que não se falaria mais no assunto, sob pena de discutirem sobre coisas passadas, que não interessava remexer, e de se zangarem de vez.
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