quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

“Aquele cheiro bom que a terra tem quando a chuva cai”

Qualquer semelhança com factos ou pessoas reais é pura coincidência!

1.ª Parte

Alberto Asor nasceu em Évora a 29 de Junho do ano da Graça de Nosso Senhor de 1970, pelas onze horas e cinquenta minutos, como afirma a Conservatória do Registo Civil, e foi baptizado na Igreja de São Francisco pelo padre António, que Deus o tem. Com poucos meses de vida, acabaria embalado nos braços da sua jovem mãe, Catarina Asor de seu nome, na companhia de dois irmãos mais velhos e de militares portugueses, no paquete “Império”1, da Companhia Colonial de Navegação (CCN), com rota traçada do Cais da Rocha de Conde de Óbidos (Lisboa) para África, mais concretamente para uma das províncias ultramarinas portuguesas ― Moçambique2.

A viagem “turística” de barco, propulsionada por turbinas a vapor, demorou vinte e dois dias. O desembarque foi feito no porto da cidade da Beira (o maior e mais bem apetrechado porto da África Oriental, procurado por navios de todo o Mundo, que cruzavam as rotas do Índico). À sua espera, estava Francisco Asor, seu progenitor, vinte e oito anos, olhos castanhos-claros, homem pequeno, com pouco mais de um metro e cinquenta, com o sexto ano de escolaridade, empregado de comércio, boémio, empertigado, marido pouco dedicado e devoto. Tinha migrado, por necessidade, e em demanda de novos horizontes longe do velho continente, uns meses antes para a cidade da Beira, numa viagem de avião que conseguiu através da firma onde o seu irmão mais novo trabalhava e a pagar em suaves prestações. Labutava para o Grupo Entreposto Comercial de Moçambique, numa secção de peças agrícolas das marcas Massey-Ferguson, Mercedes e Peugeot.

Quando residia em Évora, integrava um grupo de músicos amadores. Tocava viola, o que, aliás, lhe deu a alcunha de “Chico da Viola”. Chico da Viola travou conhecimentos com Catarina Asor, de dezasseis anos de idade, numa das suas várias idas e vindas à vila de Redondo para abrilhantar os bailes, uma alternativa às pistas de dança das discotecas. Com a quarta classe, Catarina Asor, menina bem-comportada, foi educada num convento de freiras na vila de Redondo, situada a trinta e cinco quilómetros de Évora. Viu-se privada, infelizmente, da presença de sua mãe, Mariana Rosa Rilhas, muito cedo. Tinha apenas seis anos de idade quando ela lhe faleceu e vinte e um anos de idade quando o corpo do seu pai, José Maria Valadas, desceu à terra e a sua alma aos céus.

Francisco Asor e Catarina Asor acabariam por se juntar (união de facto, como hoje se diz) em Junho de 1966, ele com vinte anos de idade, ela com dezassete, e por casar a 8 de Dezembro desse mesmo ano, com pompa e circunstância e promessas mais ou menos para durar, na Igreja do Carmo. Deste casamento nasceriam quatro rapazes, orgulho de qualquer mãe: José Asor (Setembro,1967), Carlos Asor (Fevereiro, 1969), Alberto Asor (1970) e, muito mais tarde, Hugo Asor (Abril, 1977).

Durante quatro anos, a cidade da Beira, que os portugueses crismaram de «Cidade de Futuro», foi a nova casa de Alberto Asor. Da sua vivência nesta cidade pouco se recorda. Apenas alguns fragmentos de memória, de criança simplesmente: uma praia, uma casa com garagem, um “mainato” (criado), de nome Alberto, que tomava conta de si e dos seus dois irmãos mais velhos quando os seus pais iam trabalhar (o seu pai no Entreposto; a sua mãe numa loja da “Casa Bulha”, na costura de vestidos de noiva, esse), de ter levado uma dolorosa vacina no braço, de ver pessoas a dançarem numa festa, que mais tarde lhe disseram ser a comemoração do Carnaval, de pessoas, sobretudo africanos, a comerem gafanhotos praticamente vivos, de um enorme sapo que saltitava por uma garagem, de umas quantas tropelias que cometera, enquanto actor inconsciente de três anos a caminho dos quatro e... “aquele cheiro bom que a terra tem quando a chuva cai”, como diria o poeta Reinaldo Ferreira. Outras recordações não são de Alberto Asor. Foram relatadas pelos seus irmãos e desabafos de sua mãe.

Sem tibiezas e cerimónias, Alberto Asor e a sua família estavam longe das lutas fratricidas que se travavam neste e noutros territórios africanos desde 1961, com a vontade dos povos de Moçambique e Angola se libertarem do obstinado jugo colonialista português e se constituírem em países independentes.

Com a alma em desespero e o coração a “sangrar”, muitos portugueses regressaram a Portugal com o 25 de Abril de 1974, também chamada de Revolução dos Cravos, em que um golpe de estado militar, conduzido, essencialmente, pelos oficiais intermédios da hierarquia militar (o Movimento das Forças Armadas), na sua maior parte capitães que tinham participado na Guerra Colonial, derrubou o regime político que vigorava em Portugal desde 1926. Dez mil mortos e trinta mil feridos foi o saldo de treze anos de guerra do Ultramar, marcando uma página negra da história de Portugal.

Em finais de Agosto desse ano, Alberto Asor, sua mãe e irmãos regressariam a Portugal, não no paquete “Império”, uma vez que a sua última viagem foi realizada em Dezembro de 1973, mas de avião. Não trouxeram nada na bagagem, a não ser a eterna saudade e o modo de vida e de agir das gentes que passaram por estas terras. Ficaram em casa da sua tia Digna, mulher de António Artur, irmão de Francisco Asor, na Malveira. Dias depois, João Luís, irmão de Catarina Asor, foi buscá-los de carro e transportou-os para a sua casa, em Redondo. Francisco Asor regressaria em 1975, pois de tantas escapadelas, trafulhice, negócios duvidosos, e poucos remorsos, já não vivia com eles fazia já algum tempo.

Deixa-se aqui registado uma letra musical de João Maria Tudela sobre a cidade da Beira:

Fiz da Beira o meu delisco,
Mas ainda não sei bem,
Se é amor ou se é feitiço,
Se estou preso
Aos encantos
Que ela tem
Como há quem possa julgar,
Que as cidades são iguais,
Se parto, penso voltar,
Se volto, não parto mais
Oh Beira
Que estás à beirinha
Do mar que te beija
Não és, nem serás toda minha por muito que eu seja, capaz de te amar
Oh Beira
Por muito, que eu queira
Amor, não me podes jurar
Embora me acolhas faceira
Não negues,
Oh Beira
Que és noiva do mar.

1 Os paquetes mais importantes e modernos da CNN, em 1970/71, eram o “Infante Dom Henrique”, o “Vera Cruz” e o “Santa Maria”. O paquete “Império” fazia parte de uma parelha com o “Pátria“. Praticamente idênticos, o “Pátria“ era seis meses mais velho (13.196 toneladas) do que o “Império” (13.186 toneladas), que fez a sua viagem inaugural para Moçambique em 20 de Julho de 1948. Tinham 161,54 metros de comprimento e 20,83 metros de largura e atingiam a velocidade de cruzeiro de dezoito nós. A tripulação era de cento de sessenta e sete elementos e possuía acomodações para levar até setecentos e noventa e oito passageiros: cento e catorze em primeira classe, cento e sessenta em segunda, cento e dezoito em terceira e quatrocentos e seis em terceira “suplementar“. Suplementar, quer dizer “muito mal instalados” (transporte de tropas).
2 Com um território com mais de setecentos e oitenta mil quilómetros quadrados, com quatro mil duzentos e cinquenta quilómetros de fronteira terrestre, tanzaniana, malawiana, zambiana, rodesiana, sul-africana e suazi, com uma costa de dois mil novecentos e setenta e cinco quilómetros sobre o Oceano Índico, Moçambique era uma das mais portentosas províncias portuguesas. A distância entre a sua capital política, Lourenço Marques (hoje Maputo), próximo da fronteira sul, e a sua capital militar, Nampula, mais a norte, percorria-se em cerca de duas horas em aviões a jacto, tanto como entre Lisboa e Paris. Nampula ficava ainda a quatrocentos quilómetros da fronteira setentrional ― o rio Rovuma. Na configuração moçambicana distinguia-se o extenso Norte, com o Niassa, Cabo Delgado, Moçambique e Zambézia; o Centro da Beira e de Vila Pery, verdadeiro coração geográfico, estendendo-se pelo amplo saliente de Tete; e a Sul, mais estreito, o conjunto de Gaza, Inhambane e Lourenço Marques. Cerca de quarenta e quatro porcento de zona litoral, abaixo dos duzentos metros de altitude, quarenta e três porcento de planaltos, entre os duzentos e os mil metros, e os restantes treze porcento de montanha. Uma costa onde se inseriam baías e portos de óptimas condições naturais, praias excelentes e algumas ilhas, que, além da sua beleza ímpar, constituíam padrões de uma história, na qual predominava o sentido de grandeza. A prodigalidade em recursos naturais e o esforço no sector do mercado estavam a conduzir a um desenvolvimento rápido. Moçambique estava bem no começo dos anos setenta, no início do seu milagre económico.

Sem comentários: