segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Fim

Damos por terminada a história (em 3 partes) de Alberto Asor, um personagem castiço. Relembro os leitores de que esta é uma história inventada por mim. Por isso, qualquer semelhança com alguém, é pura coincidência.

"Aquele cheiro bom que a terra tem quando a chuva cai"

3.ª Parte

Em 1991, mais precisamente a 25 de Novembro, veio o cumprimento do serviço militar obrigatório, no Exército Português. Com o número de identificação militar 07628691, Alberto Asor assentou praça no Regimento de Infantaria de Elvas, tal como o seu pai, como soldado raso. A especialidade de Corneteiro, tirá-la-ia em Beja. Não que tivesse a habilidade do seu pai para a música, mas porque sabia umas notas musicais, que aprendera na escola preparatória, numas aulas de ferrinhos e de xilofone. «Tu tens ouvido para a música meu rapaz», disse, por estas ou outras palavras, o autoritário e embirrante sargento Zagalo. «Essa agora!», referiu Alberto Asor. Pouco convencido dos seus dons musicais, lá acabaria por cumprir os obrigatórios nove meses de serviço militar, divididos entre a diária recruta para retemperar o espírito, para o unir no sentimento constitucionalista, e os toques de corneta, com a alvorada, o chamamento para o rancho, o abrir portas das oficinas, a entrada do comandante no quartel, em que toda a tropa ficava em sentido, prestando a devida continência, e outros sons mais que era obrigatório fazer, sobretudo quando estava de serviço.

Terminado o serviço militar, em 24 de Junho de 1992, a cinco dias de cumprir os vinte e dois anos de idade, Alberto Asor candidatou-se e foi seleccionado para trabalhar numa fábrica local, onde produziam componentes electrónicos para automóveis, aviões, etc. A fábrica estava a contratar mão-de-obra para se iniciar uns turnos de dez horas diárias e de três dias de descanso por semana. Feita uma formação inicial, Alberto Asor, contrariado, lá acabaria por ficar nestes turnos. Os horários (diurnos e nocturnos) de dez horas consecutivas deixavam-no de rastos. O descanso de dia é diferente do descanso da noite e vice-versa. Tanto trabalho para pouco dinheiro ao final do mês. Era uma exploração. Depressa constatou que esta vida não o levaria a lado nenhum em termos de objectivos pessoais e profissionais.

Terminado o décimo segundo ano de escolaridade em Junho de 1993, com médias que não envergonham ninguém, pensou em candidatar-se à universidade. Se bem o pensou, melhor o concretizou, pois somos filhos de uma terra dinâmica que quer preparar o futuro. Fizeram-se as provas específicas e o resultado, apesar de satisfatório, não permitiram a entrada no regime público. Sem desanimar, e com o dinheiro que recebia mensalmente da fábrica, pensou em ir para a universidade privada. Possuir um canudo e usar o título de doutor era um dos seus objectivos. A Universidade de Coimbra era a que reunia as melhores condições. A cidade não lhe era desconhecida. Decidiu então apresentar a sua candidatura. Foi aceite. Durante quatro anos (de 1993 a 1997) conseguiu trabalhar e frequentar as aulas do curso de Arquitectura. Com outros colegas que também se encontravam na mesma situação de trabalhador-estudante, conseguiu partilhar o transporte e terminar o curso com uma média excelente. Dezasseis valores. A ajuda da sua mãe foi preciosa, contribuindo para o pagamento de muitas despesas de propinas, gasolina e de material escolar. As ajudas financeiras da Câmara Municipal de Évora e da Fundação Eugénio de Almeida, através de bolsas de estudo, foram também fundamentais para o sucesso escolar.

Terminado o curso surgiram oportunidade de emprego. Diferentes das que até ao então tinha tido. Mais intelectual do que braçal. Uma das primeiras oportunidades que surgiu foi o de trabalhar numa dependência da Caixa Geral de Depósitos, em Beja. Mas, dias antes de entrar ao serviço, desistiu. O mesmo se passou com a OIKOS, organização com dimensão internacional, trabalhando em três continentes e em mais de dezoito países, para colaborar como voluntário em África ou Brasil, as suas duas opções. Pensou que não seria o ideal para começar uma nova etapa da sua vida. Candidatou-se então a uma formação promovida pela Fundação Oliveira Martins, em Lisboa. A formação durou quase seis meses e dava direito à frequência de um estágio profissional, num organismo regional à escolha. A decisão do estágio recaiu num serviço público, de reconhecido valor regional e nacional.

Sem adorno literário de última hora, o trabalho no serviço público, depois de uma meia dúzia de anos (primeiro como estagiário, depois como contratado a termo certo), tornou-se o mais sensaborão do mundo, sem perspectivas e esperanças de avanço na carreira, apesar de ter um mestrado em Direito, numa universidade pública de prestígio. Decidiu, por isso, reiniciar a prática do karaté, na procura de alguma aventura e desafio. Tinha começado a praticar esta arte marcial ou prática desportiva com dezasseis anos de idade para se defender do seu irmão mais velho que lhe costumava dar uns socos e pontapés e também nas zaragatas de rua em que se via envolvido de vez em quando, com o gangue Palmeiras. A interrupção desta prática desportivo-marcial aconteceu quando teve que cumprir o serviço militar obrigatório. Na altura já era cinto castanho na modalidade. Três anos de prática assídua levaram-no a conseguir obter a graduação de cinto negro.

O grupo de praticantes que frequentava o centro de prática combinou um encontro de convívio em Junho de 2004, na praia da Galé, em Melides. No segundo ou terceiro dia do encontro, foi-lhe apresentada uma rapariga, que o arrebatara. A conversa foi leve e inconsequente:

― «Olá, o meu nome é Sofia. E tu, como é que te chamas?».
― «Alberto. Chamo-me Alberto Asor. Vieste acampar e participar nas actividades connosco?».
― «Não. Vi ter com os meus amigos, o Eduardo e Isabel, para vir buscar um computador portátil. Pretendo regressar ainda hoje a Lisboa».
― «É pena. Acho que te ias divertir. Se um dia puderes, passa por Évora para bebermos um café e conversamos um pouco».

Sofia usava um saia comprida, até aos pés, em tons de verde e vermelho, que lhe salientavam as formas de mulher. Alberto Asor ficou deslumbrado. Tinha saudades do sobressalto de descobrir e ser descoberto por alguém.

Na última semana de Julho de 2004, Alberto Asor foi a um estágio de karaté na Praia do Rei, Fonte da Telha. Antes de se iniciar o treino colectivo, verificou que a pessoa que tinha visto na Galé estava na praia, acompanhada de uma menina que aparentava ter quatro anos de idade, certamente sua filha. Entusiasmado por a ver ao longe, pediu ao seu amigo Eduardo, que a conhecia, e que lhe tinha ficado de formatar o disco rígido do seu computador portátil, para voltar a apresentá-la. E assim foi. Apresentaram-se novamente. A conversa foi interrompida de forma brusca, devido ao treino estar a dar início.

No final da aula de karaté Alberto Asor foi ter com ela, e, com um sorriso malandro nos lábios, disse-lhe: «O Eduardo disse-me para eu vir te dar um beijinho e eu vim.» Ela sorriu, um pouco envergonhada. Trocaram umas breves palavras e ele voltou a referir-lhe que se deveriam encontrar para beber um café. O seu desejo foi atendido. Talvez tenha sido o efeito das fumigações dos pauzinhos do Oriente em casa, espiritualizando-a. Uma noite, quando saía de mais um treino de karaté, Alberto Asor foi avisado de que tinha uma visita para si, que gostaria certamente de ver, e que contavam com ele para fazer companhia num jantar de amigos. Curiosamente, o jantar foi no restaurante italiano, na Rua dos Mercadores, a garagem por onde entrava para casa em adolescente, e onde a sua mãe, uma vez mais, tinha encontrado a infelicidade. No final do jantar trocaram-se números de telefone e endereços de correio electrónico.

Dias mais tarde, e na sequência de uma troca de e-mails, combinaram um encontro na mesma praia do treino de karaté. Sofia chegou pontualmente à hora combinada. Depois de dois dedos de conversa, decidiram ir jantar juntos, mas sem antes passar por casa dela para trocar o tailleur por uns jeans e os sapatos de salto alto por uns ténis. Jantaram numa pizzaria. A partir desse dia nunca mais se deixaram. Uma mulher só se deita com um homem por duas razões: amor ou interesse. Alberto Asor tem a certeza que foi amor.

Quando Alberto Asor tinha mais ou menos trinta e dois anos, a sua avó paterna, Ângela, foi visitá-lo a casa. Com palavras simples, trazia uma mensagem consigo. O seu filho, Francisco Asor, gostava de reatar relações com os seus filhos e pedir-lhes perdão pelo mal que lhes fizera. Numa primeira fase apenas três aceitaram a crónica do desabafo e arrependimento. Os dois mais velhos e o mais novo de todos, Hugo Asor. Alberto Asor não queria aceitar, de modo nenhum, as desculpas. Até já não se lembrava de quando o tinha visto pela última vez. Mas, como diz a Bíblia, “perdoai as nossas ofensas, como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. No ano seguinte, e aproveitando a sua vinda de férias a Portugal, lá foi ao seu encontro, de forma a ajustar contas definitivas com este problema e dilema, que o andava a atormentar. Entre uma cerveja fresca e um petisco, o perdão foi aceite. Ficou assente também que não se falaria mais no assunto, sob pena de discutirem sobre coisas passadas, que não interessava remexer, e de se zangarem de vez.

domingo, 7 de dezembro de 2008

“Aquele cheiro bom que a terra tem quando a chuva cai”

2.ª Parte

A estada de Catarina Asor na vila de Redondo foi bastante curta. Com o regresso a Portugal, sem alternativa e sem esperança, perante o desolado quotidiano de que dispunham, queria mais e melhor. Por isso, rapidamente tomou a decisão de emigrar para a cidade de Hamburgo (Alemanha) para trabalhar num restaurante português. O carimbo do passaporte assinala a passagem pela fronteira do Caia, perto de Elvas, a 12 de Setembro de 1974. Foi acompanhada de uma das suas irmãs mais velhas, Maria Ana de nome, e um dos seus cunhados, Fernando Montenegro, que tinham vindo passar uns dias de férias a Portugal. Se emigrar sozinha já é difícil, quanto mais com a prole. Devido aos condicionalismos, a casa de João Luís, irmão de Catarina Asor, que vivia na vila de Redondo, serviu de porto de abrigo a José Asor, a Carlos Asor e a Alberto Asor por quase três anos.

Nesta vila, cujo nome terá tido origem num penedo redondo onde foi construído o amuramento medieval, todos os dias eram harmoniosos e de brincadeira para estes três irmãos. Mas os domingos eram especiais e eram ansiosamente esperados. De manhã, por volta das onze horas, ia-se à missa na igreja da Matriz de Nossa Senhora da Anunciação, mais para brincar do que para ouvir o sermão do padre. Em verdade, quando os fiéis baixavam a cabeça nas suas obedientes orações, Alberto, os seus irmãos e mais uns companheiros, não resistiam passar por debaixo de umas cadeiras de madeira para espreitar para aquilo que não deveria ser visto. À noite, religiosamente, na casa de um outro irmão de Catarina Asor, era um ágape de pernas de franco em molho de tomate regado não com um bom tinto alentejano, porque a idade não o permitia, mas com um sumo de laranja ou Coca-Cola. Diz-se que o segredo está no tempero. Este prato deixava um sabor antecipado de paraíso.

Ser estrangeiro não é fácil em qualquer país, sobretudo para o migrante que partiu por razões económicas difíceis. Acresce a isto a palavra que não é possível definir a sua origem, mas que temos a satisfação de a ter em nosso vocabulário, sem o perigo de competição por parte de qualquer língua da nossa família latina ― «saudade». Se a ideia inicial era orientar a vida para depois os seus filhos irem ter consigo, logo acabaria por não vingar. E Catarina Asor acabaria por regressar para junto dos seus três filhos. Dias depois desloca-se a Évora, para ir ao encontro de Francisco Asor, que andavam de candeias às avessas. Reatados os trapos, e perdoadas as traições, acabariam por ir morar para a casa da sua sogra, situada na Rua dos Mercadores. A porta de acesso ao interior da casa fazia-se por uma enorme garagem (que anos mais tarde seria transformada num restaurante de comida italiana). Mas foi sol de pouca dura. Acabariam por se separar novamente. Catarina Asor foi viver para casa de uma segunda tia de Francisco Asor, que o tinha criado desde pequeno, de nome Digna, situada na Rua de Valverde, Chafariz d’el Rei.

Com as pazes restabelecidas, projectos e conversas de futuro, beijinhos para a esquerda e para a direita, foram viver para uma paupérrima casa situada no Bairro Nossa Senhora da Glória, Rua da Cooperativa, Pátio da Bandeira, número 2, propriedade da madrinha de baptizo de Alberto Asor. A casa tinha apenas três divisões: uma pequena cozinha, uma sala e um quarto. Casa de banho não havia. Apenas um buraco (para os sólidos e para os líquidos), a um dos cantos do quarto, com uma tampa de madeira, não fosse surgir dali alguma ratazana. Os banhos eram tomados num alguidar. De Verão, tomava-se banho de água fria. De Inverno, a água era colocada numa panela e era aquecida no fogão. Quando o frio apertava a sério, estar em casa ou estar na rua era praticamente semelhante. Eram tempos apartados.

Alberto Asor e os seus irmãos tiveram pouquíssimos brinquedos. O divertimento consistia em brincadeiras de rua com outros companheiros. Era o jogo do berlinde (em vidro, plástico ou esferinhas de metal, semelhantes às que se encontram nos rolamentos), do pião de madeira (depois de envolvido o pião com a guita, a partir do bico (ferrão), o pião é lançado ao chão com força, com o objectivo de o colocar a girar ou bailar o mais tempo possível), dos índios e cóbois, das escondidas, do colher (o verbo colher não deve ser entendido na sua plena literalidade) fruta dos quintais vizinhos, e sorver o néctar guloso que surdia do interior deles, renhidos desafios de futebol, que terminavam invariavelmente nuns joelhos escalavrados, mas nada que a água oxigenada, mercurocromo, algodão, uma caixinha de pensos rápidos não resolvesse. Havia também umas brincadeiras inventadas, como, por exemplo, aos enfermeiros e às enfermeiras, com as meninas que moravam perto de casa, etc. De todos, o passatempo preferido de Alberto Asor era a feitura de uma espécie de carros de rolamentos, permitindo deslizar nas descidas.

O tempo passou, e fosse como fosse, Francisco Asor acabaria por fazer mais uma das suas patifarias. Não foi, aliás, novidade. Todos sabíamos do seu passado, em que o mulheril mais pareciam canários atrás de alpista. Francisco Asor integrava aquele género de homens que não tendo nada de especial, aparentemente, consegue, por isso mesmo, dar a volta à cabeça das mulheres. Já o tinha feito em África, por diversas vezes, e que lhe deu mais dois filhos (Sandra e Francisco) aos três que já tinha. Acabaria por pular a cerca. Desta vez, a nova conquista chamava-se Joana e era assídua presença de casa de Catarina Asor devido à amizade e ao auxílio emocional, pois o seu marido, bastante jovem, e pouco tempo depois de se casarem, tinha falecido num estúpido acidente de motociclo. O jogo de escondidas eternizado não poderia durar. Tudo se sabe, quando o reboliço é muito. Foi motivo de conversa no bairro, pois todos se conheciam. Francisco Asor tinha vários filhos (legítimos e ilegítimos) para alimentar. Mas isso pouco lhe importava. Estava noutra onda. Depois de várias discussões familiares, que não acabaram em agressão física porque Catarina Asor não deixou, acabaria por sair de casa e partir com o seu troféu para Sines, onde pouco tempo depois nasceria mais uma criança, de nome Vanda, para a galeria familiar. Somavam, assim, sete filhos. Cinco rapazes e duas raparigas, todos eles com histórias para contar.

Há anos que ciclicamente Catarina Asor sofria com Francisco Asor. Em silêncio, com a dignidade própria das esposas exemplares que se querem respeitadas. Mas era só o que faltava entrar no quarto da sua própria casa apanhar o marido com uma gaja qualquer, e dizer desculpa, enganei-me no quarto. O que cedo na vida lhe parecera ser eterno escapou-se-lhe por entre os dedos das mãos, como se de areia se tratasse. O divórcio por mútuo consentimento consumar-se-ia a 13 de Dezembro de 1990, na Comarca de Évora, Tribunal Judicial. Francisco Asor nunca mais deu sinal de vida. Um pormenor adicional: os dez contos mensais que ficaram estipulados por lei para pensão de alimentos nunca foram depositados na conta bancária devida. Soube-se mais tarde que tinha ido para França. Não a “salto”, como se fazia antigamente, mas de carro. Os padrinhos do novo rebento foram um casal de franceses que costumavam passar férias em Melides. Decidiram convidá-los para irem com eles e ficarem por lá a trabalhar. Assim foi. Não se sabe que voltas deram, mas acabaram por trocar de mulheres. Sem saberem, estavam a inventar uma nova corrente de troca de parceiros (swing, para utilizarmos um estrangeirismo corrente) como agora se diz. Joana ficou com o francês; Francisco Asor queda-se de amores pela francesa, um pouco mais velha do que ele. A união de facto entre Joana e o francês permaneceu e nasceu mais um filho ou filha. A relação de Francisco com a francesa acabaria alguns meses depois, com violência doméstica à mistura. Sob pena de ser repatriado para Portugal, por estar clandestino e por maus tratos, acabaria por se casar com uma francesa.

Catarina Asor, mulher de coragem, ficou, uma vez mais, à sua sorte, não com três, mas com quatro bocas para alimentar, pois o Hugo Asor nasceria em 26 de Abril de 1977. Teve que arranjar trabalho em vários sítios, especialmente em fábricas. E lá foram vivendo, sempre privados de tudo, pois o dinheiro mal dava para comer. Viviam de ajudas familiares, das relações simpáticas de vizinhança e de instituições de caridade.

Como a casa era pequena, com um quarto apenas, todos dormiam juntos. No que a Alberto Asor diz respeito, dormia numa cadeira de madeira, com um ou dois cobertores por baixo, a fazer de colchão, e encostada à cama onde os seus irmãos dormiam para não cair. Mas as dores de coluna continuadas falavam por si.

Com o início do ano escolar, Catarina Asor colocou Carlos Asor na casa da tia Digna, de forma a frequentar a escola primária do Chafariz d’el Rei. Alberto Asor, de vez em quando, permutava com ele, de forma a matar saudades dos restantes irmãos. Alberto Asor detestava ir para casa da sua tia. Ainda por cima ela escondia-lhe as bolachas Maria, não fosse ele comer tudo e não deixar nada para o chá antes de deitar. A tia Digna não tinha televisão. De vez em quando iam para casa de uma vizinha ver um ou outro programa televisivo. À noite, acendia-se o candeeiro a petróleo para se poupar dinheiro. Nas noites de frio preparava-se uma braseira de carvão. Passavam os serões, em silêncio, a ver o carvão a arder. Não se podia mexer muito na braseira não fosse o carvão arder depressa de mais e irem para a cama mais cedo.

Alberto entrou um ano depois na escola primária que o seu irmão Carlos Asor frequentava. Foi um dia emocionante. No primeiro dia de escola foi sozinho, vestido com umas calças azuis claras. Os quatro anos de frequência da escola primária e, consequente aprendizagem, fez-se sem sobressaltos. Apenas se recorda de ter levado duas injustas palmatórias com a velhinha «menina-dos-cinco-olhos», ícone da sala de aula, oriunda da arte de marcenaria. O lamentável acontecimento foi assim: O professor Ferreira uns minutos antes da hora do recreio matinal pediu a todos os alunos que fizessem umas contas de adição e subtracção, previamente colocadas no quadro de ardósia. Como o Alberto as considerou bastante simples, fê-las ainda mesmo de ir para o intervalo, na ingénua esperança de que assim teria mais tempo livre. Quando o recreio terminou, o professor perguntou quem não tinha feito os exercícios solicitados. Uma menina que dividia a secretária levantou o dedo e, sem demoras, acusou Alberto Asor. Verdade seja dita. O professor nem quis ouvir explicações adicionais. Furibundo foi buscar a palmatória e, sem medir a força, zás e zás, deixando transparecer uma certa satisfação. Depois de ter levado as duas reguadas, e perante o olhar perplexo dos colegas, Alberto acabaria por dizer em alta voz que tinha sido acusado injustamente, pois os problemas encomendados tinham sido resolvidos dois ou três minutos antes de ir para o recreio, pois não queria perder pitada do jogo de futebol com os camaradas. Não se recorda de o professor ter lhe pedido desculpa. Pior sorte teve o seu irmão Carlos, que levou um puxão de orelhas de tal forma do professor Pombo que quase ia ficando sem elas. De tal forma, que Catarina Asor tirou-se dos seus cuidados e deslocou-se à escola para pedir explicações ao professor. Foi remédio santo, pois nunca mais se ouviu falar de puxões de orelhas e palmatórias.

Com a ajuda da autarquia local, Catarina Asor conseguiu uma casa num bairro social. Com a chave na mão, a mudança fez-se de imediato, até porque tinham pouca coisa para levar. A nova casa e o bairro ainda nem sequer tinham luz eléctrica a funcionar. Mas mesmo sem luz eléctrica, sempre era melhor estar ali do que na casa que habitavam. Pelo menos a nova casa tinha quartos para todos e uma casa de banho, com lavatório, bidé e banheira. E em vez de um verde musgo em parede de quintal decrépita, uma vista para a Sé de Évora, a maior Catedral medieval do país. Um luxo.

Os bairros sociais têm os seus problemas, levando, não raras vezes, à guetização. Ora, este bairro, designado de “Cruz da Picada”, onde a maioria dos residentes era de classe social baixa, famílias de escassas posses, juntando mais uns ciganos e tendeiros, conseguiu obter, sem dificuldades maiores, a classificação de bairro problemático, marginal e inseguro, nas décadas de oitenta e noventa, levando a que se instalasse uma esquadra da PSP, isto é, da Polícia de Segurança Pública, pois, assim, poupavam nos custos das deslocações dos zelosos agentes que ali acorriam diariamente.

Alberto Asor acabaria por arranjar novos amigos. Cerca de uma vintena, a maioria deles rapazes. Os seus dias eram passados na escola, quando não havia férias, e ao cair da noite juntava-se com os seus amigos nas imediações do bairro para as normais brincadeiras ou simples conversas. Sem premeditação, Alberto Asor e os seus amigos acabariam por formar um gangue, apelidado de “Palmeiras”. Os que levaram esta brincadeira mais a sério chegaram a tatuar nos seus braços uma figura alusiva. «Uns malandros e rufias, a precisam de um bom correctivo», na opinião de muitas pessoas. Mas não. Ainda estavam muito longe dos currículos dos rejeitados protagonistas Renato, Marlene, Flávio, Arnaldo, Pedro, Adelaide e Silvino apresentados por Mário Zambujal na sua “Crónica de Bons Malandros”. Os Palmeiras não faziam mal a ninguém, a não ser umas quantas brigas de rua, com outros rapazes tesos, umas roupas que “voavam” do estendal dos bairros limítrofes mais ricos, e a dança do break-dance, que durante um período de tempo esteve na moda.

As “más” companhias, e a pouca sensibilidade para os sons e os sentidos das palavras, fizeram com que Carlos Asor e Alberto Asor perdessem o ano escolar do sétimo ano por excesso de faltas. Como o dinheiro não esticava, Catarina Asor acabaria por colocar, primeiro um e depois outro, num curso técnico-profissional, promovido pelo Centro de Emprego local. O curso era de Serralharia Civil (Sector de Actividade: Metalomecânica). Para além de atribuir as habilitações escolares até ao nono ano de escolaridade, permitia que o trabalhador exercesse a sua actividade em todos ramos da indústria da construção e reparação de instalações, estruturas e equipamentos metálicos, executando a traçagem, marcação, corte, enformação, montagem e ligação de elementos metálicos segundo os imperativos das construções. Numa palavra, juízo naquelas cabeças e dinheiro em casa, pensava Catarina Asor. O curso de três anos concluiu-se com aprovação para ambos. Alberto Asor concluiu o seu a 23 de Dezembro de 1988. Mas também criou a vontade de Alberto Asor sair daquela vida difícil e enfastiada de operário fabril, de fato-de-macaco sujo de óleo e de baixo salário. Com vontade de dar outro rumo à sua vida, acabaria por matricular-se no décimo ano de escolaridade e estudar à noite para continuar a sua formação e educação.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

“Aquele cheiro bom que a terra tem quando a chuva cai”

Qualquer semelhança com factos ou pessoas reais é pura coincidência!

1.ª Parte

Alberto Asor nasceu em Évora a 29 de Junho do ano da Graça de Nosso Senhor de 1970, pelas onze horas e cinquenta minutos, como afirma a Conservatória do Registo Civil, e foi baptizado na Igreja de São Francisco pelo padre António, que Deus o tem. Com poucos meses de vida, acabaria embalado nos braços da sua jovem mãe, Catarina Asor de seu nome, na companhia de dois irmãos mais velhos e de militares portugueses, no paquete “Império”1, da Companhia Colonial de Navegação (CCN), com rota traçada do Cais da Rocha de Conde de Óbidos (Lisboa) para África, mais concretamente para uma das províncias ultramarinas portuguesas ― Moçambique2.

A viagem “turística” de barco, propulsionada por turbinas a vapor, demorou vinte e dois dias. O desembarque foi feito no porto da cidade da Beira (o maior e mais bem apetrechado porto da África Oriental, procurado por navios de todo o Mundo, que cruzavam as rotas do Índico). À sua espera, estava Francisco Asor, seu progenitor, vinte e oito anos, olhos castanhos-claros, homem pequeno, com pouco mais de um metro e cinquenta, com o sexto ano de escolaridade, empregado de comércio, boémio, empertigado, marido pouco dedicado e devoto. Tinha migrado, por necessidade, e em demanda de novos horizontes longe do velho continente, uns meses antes para a cidade da Beira, numa viagem de avião que conseguiu através da firma onde o seu irmão mais novo trabalhava e a pagar em suaves prestações. Labutava para o Grupo Entreposto Comercial de Moçambique, numa secção de peças agrícolas das marcas Massey-Ferguson, Mercedes e Peugeot.

Quando residia em Évora, integrava um grupo de músicos amadores. Tocava viola, o que, aliás, lhe deu a alcunha de “Chico da Viola”. Chico da Viola travou conhecimentos com Catarina Asor, de dezasseis anos de idade, numa das suas várias idas e vindas à vila de Redondo para abrilhantar os bailes, uma alternativa às pistas de dança das discotecas. Com a quarta classe, Catarina Asor, menina bem-comportada, foi educada num convento de freiras na vila de Redondo, situada a trinta e cinco quilómetros de Évora. Viu-se privada, infelizmente, da presença de sua mãe, Mariana Rosa Rilhas, muito cedo. Tinha apenas seis anos de idade quando ela lhe faleceu e vinte e um anos de idade quando o corpo do seu pai, José Maria Valadas, desceu à terra e a sua alma aos céus.

Francisco Asor e Catarina Asor acabariam por se juntar (união de facto, como hoje se diz) em Junho de 1966, ele com vinte anos de idade, ela com dezassete, e por casar a 8 de Dezembro desse mesmo ano, com pompa e circunstância e promessas mais ou menos para durar, na Igreja do Carmo. Deste casamento nasceriam quatro rapazes, orgulho de qualquer mãe: José Asor (Setembro,1967), Carlos Asor (Fevereiro, 1969), Alberto Asor (1970) e, muito mais tarde, Hugo Asor (Abril, 1977).

Durante quatro anos, a cidade da Beira, que os portugueses crismaram de «Cidade de Futuro», foi a nova casa de Alberto Asor. Da sua vivência nesta cidade pouco se recorda. Apenas alguns fragmentos de memória, de criança simplesmente: uma praia, uma casa com garagem, um “mainato” (criado), de nome Alberto, que tomava conta de si e dos seus dois irmãos mais velhos quando os seus pais iam trabalhar (o seu pai no Entreposto; a sua mãe numa loja da “Casa Bulha”, na costura de vestidos de noiva, esse), de ter levado uma dolorosa vacina no braço, de ver pessoas a dançarem numa festa, que mais tarde lhe disseram ser a comemoração do Carnaval, de pessoas, sobretudo africanos, a comerem gafanhotos praticamente vivos, de um enorme sapo que saltitava por uma garagem, de umas quantas tropelias que cometera, enquanto actor inconsciente de três anos a caminho dos quatro e... “aquele cheiro bom que a terra tem quando a chuva cai”, como diria o poeta Reinaldo Ferreira. Outras recordações não são de Alberto Asor. Foram relatadas pelos seus irmãos e desabafos de sua mãe.

Sem tibiezas e cerimónias, Alberto Asor e a sua família estavam longe das lutas fratricidas que se travavam neste e noutros territórios africanos desde 1961, com a vontade dos povos de Moçambique e Angola se libertarem do obstinado jugo colonialista português e se constituírem em países independentes.

Com a alma em desespero e o coração a “sangrar”, muitos portugueses regressaram a Portugal com o 25 de Abril de 1974, também chamada de Revolução dos Cravos, em que um golpe de estado militar, conduzido, essencialmente, pelos oficiais intermédios da hierarquia militar (o Movimento das Forças Armadas), na sua maior parte capitães que tinham participado na Guerra Colonial, derrubou o regime político que vigorava em Portugal desde 1926. Dez mil mortos e trinta mil feridos foi o saldo de treze anos de guerra do Ultramar, marcando uma página negra da história de Portugal.

Em finais de Agosto desse ano, Alberto Asor, sua mãe e irmãos regressariam a Portugal, não no paquete “Império”, uma vez que a sua última viagem foi realizada em Dezembro de 1973, mas de avião. Não trouxeram nada na bagagem, a não ser a eterna saudade e o modo de vida e de agir das gentes que passaram por estas terras. Ficaram em casa da sua tia Digna, mulher de António Artur, irmão de Francisco Asor, na Malveira. Dias depois, João Luís, irmão de Catarina Asor, foi buscá-los de carro e transportou-os para a sua casa, em Redondo. Francisco Asor regressaria em 1975, pois de tantas escapadelas, trafulhice, negócios duvidosos, e poucos remorsos, já não vivia com eles fazia já algum tempo.

Deixa-se aqui registado uma letra musical de João Maria Tudela sobre a cidade da Beira:

Fiz da Beira o meu delisco,
Mas ainda não sei bem,
Se é amor ou se é feitiço,
Se estou preso
Aos encantos
Que ela tem
Como há quem possa julgar,
Que as cidades são iguais,
Se parto, penso voltar,
Se volto, não parto mais
Oh Beira
Que estás à beirinha
Do mar que te beija
Não és, nem serás toda minha por muito que eu seja, capaz de te amar
Oh Beira
Por muito, que eu queira
Amor, não me podes jurar
Embora me acolhas faceira
Não negues,
Oh Beira
Que és noiva do mar.

1 Os paquetes mais importantes e modernos da CNN, em 1970/71, eram o “Infante Dom Henrique”, o “Vera Cruz” e o “Santa Maria”. O paquete “Império” fazia parte de uma parelha com o “Pátria“. Praticamente idênticos, o “Pátria“ era seis meses mais velho (13.196 toneladas) do que o “Império” (13.186 toneladas), que fez a sua viagem inaugural para Moçambique em 20 de Julho de 1948. Tinham 161,54 metros de comprimento e 20,83 metros de largura e atingiam a velocidade de cruzeiro de dezoito nós. A tripulação era de cento de sessenta e sete elementos e possuía acomodações para levar até setecentos e noventa e oito passageiros: cento e catorze em primeira classe, cento e sessenta em segunda, cento e dezoito em terceira e quatrocentos e seis em terceira “suplementar“. Suplementar, quer dizer “muito mal instalados” (transporte de tropas).
2 Com um território com mais de setecentos e oitenta mil quilómetros quadrados, com quatro mil duzentos e cinquenta quilómetros de fronteira terrestre, tanzaniana, malawiana, zambiana, rodesiana, sul-africana e suazi, com uma costa de dois mil novecentos e setenta e cinco quilómetros sobre o Oceano Índico, Moçambique era uma das mais portentosas províncias portuguesas. A distância entre a sua capital política, Lourenço Marques (hoje Maputo), próximo da fronteira sul, e a sua capital militar, Nampula, mais a norte, percorria-se em cerca de duas horas em aviões a jacto, tanto como entre Lisboa e Paris. Nampula ficava ainda a quatrocentos quilómetros da fronteira setentrional ― o rio Rovuma. Na configuração moçambicana distinguia-se o extenso Norte, com o Niassa, Cabo Delgado, Moçambique e Zambézia; o Centro da Beira e de Vila Pery, verdadeiro coração geográfico, estendendo-se pelo amplo saliente de Tete; e a Sul, mais estreito, o conjunto de Gaza, Inhambane e Lourenço Marques. Cerca de quarenta e quatro porcento de zona litoral, abaixo dos duzentos metros de altitude, quarenta e três porcento de planaltos, entre os duzentos e os mil metros, e os restantes treze porcento de montanha. Uma costa onde se inseriam baías e portos de óptimas condições naturais, praias excelentes e algumas ilhas, que, além da sua beleza ímpar, constituíam padrões de uma história, na qual predominava o sentido de grandeza. A prodigalidade em recursos naturais e o esforço no sector do mercado estavam a conduzir a um desenvolvimento rápido. Moçambique estava bem no começo dos anos setenta, no início do seu milagre económico.

Boas notícias para mim

Acabei de receber uma boa notícia do Prof. Doutor Wojciech J. Cynarsky, da Universidade de Rzeszow (Polónia). Um artigo científico que escrevi em tempos será publicado na prestigiada revista Ido-Ruch dla Kultury/Movement for Culture, em 2009.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Regras para ser feliz

Sem grandes apresentações, Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi um grande filósofo do século XIX. Deixou-nos textos invulgares e introduziu o pensamento budista e indiano na metafísica alemã. Franco Volpi recolheu alguns desses textos e publicou-os numa obra, editada pela Seuil: «L'Art d'Être Heureux - A Travers Cinquante Regles de Vie». A quadra natalícia não está incluída nas 50 regras que lhe permitirão levar uma vida feliz.

domingo, 30 de novembro de 2008

Sinais dos tempos

  1. O abandono escolar na UE foi de cerca de 15%, em 2007. Portugal, como não poderia deixar de ser, apresentou a taxa mais elevada: 36,3%.
  2. Mais de um terço da população com idades compreendidas entre 18 e 24 anos não completou a escola e não frequenta cursos de formação profissional. Para quê, não é verdade?
  3. Apenas 13% da população activa adulta completou o ensino secundário. E já é muito...
  4. Cerca de 57% terminaram o 1.º Ciclo do básico. “Porreiro, pá”, lá diz... quem sabe...

Tudo isto são informações da insuspeita OCDE. Por cá, o INE e outros estudos referem que em Portugal:

  1. As expectativas dos consumidores atingiram valores muito baixos. Os mais baixos desde há cinco anos.
  2. O desemprego continua a subir. Eu já estou na lista.
  3. O crescimento da economia tem vindo a diminuir cada dia que passa.
  4. O endividamento público é de mais de 140 mil milhões de euros.
  5. O défice da Caixa Geral de Aposentações, no final de 2008, será superior a 3 mil milhões de euros. O valor, em 2005, era de 1,5 mil milhões.
  6. A emigração portuguesa retomou com força e vigor. Só Espanha, recebe entre 60 mil e 70 mil portugueses. Mas a contabilização é difícil.
  7. O número de imigrantes estrangeiros está a diminuir.
  8. O envelhecimento populacional é um dado adquirido.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Desemprego

Pela primeira vez em trinta e um meses, o número de desempregados inscritos no final do mês nos Centros de Emprego aumentou em Outubro, segundo informações do IEFP. Os sectores da construção e do imobiliário explicam parte dessa subida. São 76.751 desempregados.

“Já não se escrevem cartas de amor”

Adoro ler os livros do alentejano Mário Zambujal. Não querendo gastar o tempo na rua, ontem, à noite, terminei o romance “Já não se escrevem cartas de amor” (A Esfera dos Livros, 2008). A sua imaginação, humor e sensibilidade é, de facto, impressionante. É um escritor de mão-cheia. Na companhia de uma fumegante chávena de chá, este romance, de intriga apurada, proporcionou-me um ditoso serão.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Lua

Quando penso em presentes para a minha companheira, penso em coisas modestas (um livro, um perfume, um telemóvel, um gps, uma viagem, etc.). O vencimento de um funcionário público com contrato de trabalho a termo não dá para muito mais. Vem isto a propósito para dizer que ao folhear (apressadamente) um jornal diário li uma notícia "engraçada": Roman Abramovich (proprietário do Chelsea FC) como prova do seu amor pela belíssima ex-modelo Dasha Zhukova comprou-lhe 40 hectares do único satélite natural da Terra. Dizem os entendidos que o terreno é visível a partir da Terra, com um telescópio. Os que adoram a Lua têm que se apressar, pois qualquer dia não têm nada.

Política

No passado dia 21 de Novembro, António Costa Dieb foi reeleito Presidente da Comissão Política Distrital. Concorreram duas Listas: a lista A, encabeçada pelo professor universitário Luís Sebastião, que contava com o apoio de António Dieb, obteve 70% dos votos; a Lista R, encabeçada por Carlos Sezões, obteve 30% dos votos. Apostar na dinamização do Partido, atrair independentes, apoiar as Secções e preparar as eleições (Europeias, Legislativas e Autárquicas) de 2009 são as principais preocupações de António Costa Dieb. Este será o seu terceiro mandato à frente do PSD Évora.

Laicidade


Jornada sobre Laicidade, 09/12/2008, Paris.

Tal como fiz com Toulouse, também recomendo uma visita a Paris. A minha ida está prevista para o dia 19 de Dezembro.

O que é a laicidade? Pois, a laicidade é um conceito de raiz cristã, que traduz a separação entre a esfera política e a espiritual.

Conferência Pública em Toulouse


Um tema sempre actual.
Toulouse é uma cidade lindíssima. Vale a pena a ida. Eu já lá estive muitas, muitas vezes. E, confesso, tenho saudades de lá voltar...

Dia Nacional da Adopção de Crianças

4749 pessoas já assinaram a petição na Internet, que será entregue na Assembleia da República, a solicitar a instituição de 10 de Maio de 2009 como o Dia Nacional da Adopção de Crianças. http://www.peticao.com.pt/ver-assinaturas.php?peticao=13
Como sei que o leitor é sensível a este assunto, e quer ajudar a lançar o debate, sensibilizando o poder judicial para uma maior rapidez dos processos, não fique de fora. Assine também.

Previsões

Para o próximo ano, a OCDE prevê a existência de 480 mil desempregado. Em 2010, a situação vai agravar-se, atingindo 498 mil pessoas. A confirmarem-se estas previsões, o desemprego volta a registar níveis historicamente elevados. Face a estes números, o Governo diz que o cenário poderia ser pior e não pretende alterar as regras do subsídio de desemprego. A oposição e os empresários não estão convencidos. Bruxelas, por seu turno, aconselha que os Estados-membros considerem a possibilidade de aumentar a duração do subsídio de desemprego.

710

«“EU NÃO SOU CÚMPLICE” 2008 tem sido um ano negro da violência doméstica em Portugal. Homicídios e tentativas de homicídio ultrapassam os números dos últimos 5 anos. Apesar de toda a consciencialização social, os dados apontam para um agravamento do problema. Urge, pois, enfrentá-lo com respostas mais eficazes. Neste sentido, a UMAR lança agora uma campanha dirigida aos homens para estes se solidarizarem com as vítimas de violência, retirarem o apoio aos agressores e se demarcarem publicamente dos seus actos. A campanha “Eu Não Sou Cúmplice” tem o objectivo de mobilizar as energias masculinas para esta batalha dos direitos humanos que está longe de estar ganha. Os homens abaixo-assinados repudiam toda e qualquer violência contra as mulheres, comprometendo-se na consciencialização e intervenção social da sociedade para a igualdade de género e promoção de uma cultura de não violência. Os homens abaixo-assinados apelam a todos os homens que não sejam cúmplices e testemunhas passivas da violência contra as mulheres.»
Assine: http://www.petitiononline.com/UMAR/petition.html. Eu já assinei. Sou o 710.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Investigação e Desenvolvimento (I&D) na Região do Alentejo

Portugal não é um país regionalizado. Assim sendo, não existe um sistema de inovação regional, mas sim um Sistema Nacional de Inovação (SNI). Consequentemente, os actores regionais de inovação do Alentejo são aqueles que pertencem ao SNI e que estão localizados na região do Alentejo. Uma abordagem regional às estratégias de inovação tem vindo a ganhar forma nas regiões portuguesas, apoiada em alguma descentralização de poderes e no facto das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento das diversas regiões terem sofrido reestruturações e terem ganho algumas funções e projectos (se bem que limitadas(os)) nestes domínios. No que respeita ao investimento em I&D, o Alentejo não é uma região particularmente rica em actividades, recursos e competência em investimento e desenvolvimento tecnológico. Na presente situação, tendo em conta o panorama actual alentejano e a sua capacidade de absorção reduzida, isto não é ainda um dos principais problemas. O Alentejo possui 112 unidades de investigação (INE, 2007), o que representa apenas 5,1% das unidades de I&D em Portugal. Com um total de 46.877 milhares de euros de despesa total em I&D (INE, 2007), onde praticamente metade corresponde ao Ensino Superior (44,3%), as Empresas representam 41,5% do valor, o Estado 12,8% do valor e onde as Instituições Privadas Sem Fins Lucrativos têm apenas um valor marginal (1,4%). Isto indica que o perfil das despesas em I&D é concentrado no sector do Ensino Superior, sendo a contribuição das empresas ligeiramente mais reduzida que a média nacional (38,5%).

39.373

Segundo o Observatório do Emprego Público, 39.373 é a redução do número de funcionários públicos entre Janeiro de 2006 e Dezembro de 2007. No final de 2007, o Estado empregava 529.177 pessoas, menos 6,5% que em 2005.

Isso não significa que os serviços tenham melhorado.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Livro "Sociologia da Inovação", de Luísa Oliveira

Terá lugar no próximo dia 26 de Novembro, pelas 18h30, na sala C103 (Ed. II), ISCTE, a sessão de lançamento do livro "Sociologia da Inovação. A Construção Social das Técnicas e dos Mercados", da autoria de Luísa Oliveira. A apresentação será feita pelos Professores Doutores João Freire e António Firmino da Costa.

Geminação entre Lisboa e Gaza

Eu já "assinei". E você? Vai ver que não custa nada.
http://www.petitiononline.com/ggaza/petition.html

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Falemos de avaliação SIADAP

Na qualidade de funcionário contratado pela CCDR Alentejo, fui avaliado em 2004, 2006 e 2007, através do Sistema Integrado de Avaliação do Desempenho dos Trabalhadores da Administração Pública (SIADAP 3), suportado pela Lei n.º 66-B/2007, de 28 de Dezembro, e pela Portaria n.º 1633/2007, de 31 de Dezembro. Tive como avaliação global de desempenho (objectivos, competências comportamentais e atitude pessoal): 3,8 (Bom), 3,8 (Bom) e 3,5 (Bom), respectivamente. Fui sempre informado de que os contratados a termo certo não poderiam ter mais do que 3 pontos. Em 2005, o meu serviço não criou as condições para ser avaliado, bem como muitos outros colegas meus. Ou seja, uns funcionários foram, outros não.
Chega-se a 19 de Novembro de 2008, e fui convocado para uma reunião para se falar sobre a avaliação do corrente ano. Depois de muitos preâmbulos, foi-me dado a conhecer o actual formulário e as alterações que sofreu face aos anteriores. Ao que parece caiu o item “atitude pessoal”. É um ponto muito subjectivo. Por outro lado, alvitrou-se a necessidade urgente de pensarmos nos novos objectivos, mas nenhuma data me foi apresentada.
O meu contrato de trabalho cessa a 31 de Dezembro de 2008. Dia 18 de Dezembro entro de férias. Ou bem me engano ou a avaliação de 2008 seguirá caminhos semelhantes à do ano 2005. Mas se ela ocorrer, acho que me espera outra vez 3 pontos.
Entre outras, esta questão da avaliação SIADAP leva-me a constatar a desorganização dos serviços nesta matéria, pois os objectivos individuais deveriam ser definidos no início do ano e não no seu final, e, sem querer ser demagogo, esta avaliação, como está a ser aplicada, não serve absolutamente para nada, ou melhor, só serve para penalizar os trabalhadores.
Cento e vinte mil professores foram para a rua manifestar-se contra uma avaliação que consideram ser injusta. As vítimas do SIADAP, e que são muitas, deveriam fazer o mesmo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

“HARA”, Yukio Mishima e Centro Cultural de Belém (CCB)


O centro do indivíduo ocidental está no coração. Já o do japonês está no hara, ou, por outras palavras, no abdómen. Por isso, o harakiri era a forma mais significativa de um indivíduo tirar a própria vida no Japão dos samurais. Quando um guerreiro queria livrar-se de uma grande desonra ou demonstrar lealdade, ele sentava-se à maneira japonesa no tatami (tapete) e, com sua espada, furava a barriga, abrindo o corte até o outro lado. Mesmo durando horas, o sofrimento até à morte deveria ser suportado sem gritos ou choros pelo guerreiro, que agonizava em frente à família. No final, a sua cabeça era decepada e entregue aos parentes.
Vem isto a propósito para dizer que Yukio Mishima, nascido em 1925 com o nome de Hiraoka Kimitake, praticou o harakiri no dia em que conclui o seu último romance, A Queda do Anjo. Foi uma forma de protestar contra aquilo que ele considerava a descaracterização da milenar civilização nipónica.
O escritor japonês é um dos nomes indispensáveis da literatura daquele país, seja pela forma refinada ou pelo conteúdo opulento de suas obras. Tirar a própria vida, a 25 de Novembro de 1970, com o suicídio-ritual, era apenas uma das obsessões do “masoquista” e homossexual escritor que retratou em inúmeros livros a cultura japonesa na sua mais antiga tradição, aliada à influência ocidental.
Cores Proibidas, romance de 1951, da Editora Companhia das Letras, é uma dessas obras, que também é impregnada de “pinceladas” sobre a vida pessoal do autor. O livro coloca em causa as personalidades do misógino escritor Shunsuke Hinoki, um homem desprezado pelas mulheres que encheu-se de desprezo pela vida, e de Yuichi Minami, um jovem homossexual velado, que se divide entre a vida com sua esposa e a entrega aos prazeres nocturnos.

«Com o Ciclo Mishima, Um Esboço do Nada, o CCB evoca a figura e a obra de Yukio Mishima nas suas diversas vertentes: como dramaturgo, como romancista e como actor/personagem de cinema. Uma exposição construída pelo desenhador Tiago Manuel visita três obras fundamentais do autor de Confissões de Uma Máscara e Ko Murobushi, expoente da dança butô, apresenta-se no Pequeno Auditório.»

OFICINA:


OFICINA DE CALIGRAFIA JAPONESA PARA ESCOLAS, ADULTOS E FAMÍLIA

SALA D CPA

3 a 16 de Novembro

PREÇOS - Dias úteis 2€ Fins-de-semana e feriados 4€

EXPOSIÇÕES:


EXPOSIÇÃO DE TIAGO MANUEL GALERIA MÁRIO CESARINY

17 de Novembro a 14 de Dezembro

Inauguração às 19:00 (ENTRADA LIVRE)

Segunda a sexta-feira das 14:00 às 18:00

Sábados, domingos e feriados das 14:00 às 20:00



ESPECIAL CEDÊNCIA DE JORGE MEIRELES

SALA DE LEITURA

17 de Novembro a 14 de Dezembro

Inauguração às 19:00 (ENTRADA LIVRE)

Segunda a sexta-feira das 8:00 às 20:00

Sábados, domingos e feriados das 10:00 às 20:00

Afinal

Afinal, o Prof. António Nóvoa, Reitor da Universidade de Lisboa, mal se demitiu, anunciou a sua recandidatura. Dizem os especialistas que se vier a ser reeleito reforça a sua posição na Academia e "prova" a Mariano Gago que a sua política terá cada vez mais dificuldades em passar na Cidade Universitária.

Era bom que assim fosse


Miguel Sousa Tavares é um dos jornalistas que mais aprecio pelas crónicas que escreve. Contudo, estou em desacordo com ele quando diz, no seu texto "Só restarão vencidos", publicado no jornal semanário Expresso, de 15.11.2008, que «(...) a avaliação é regra número 1 do contrato de trabalho: progride-se na profissão, é-se aumentado ou não, conforme os superiores hierárquicos ou o patrão avaliam o trabalho dos empregados. Sempre foi assim, nunca ninguém estranhou e ninguém quer de outra maneira». A minha experiência de trabalho na função pública diz-me que não é bem assim.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Ensino superior

Ontem, dava conta de que a Universidade do Minho encerrava as portas por uns dias para poder pagar, justamente, os salários dos funcionários e docentes. Hoje, a notícia é a de que o reitor da Universidade de Lisboa, Prof. António Novoa, apresentou a sua demissão, durante a cerimónia de abertura do novo ano académico. Estou certo de que nos próximos dias haverá mais destaques. Isto é uma novela sem fim à vista.

Um blogue a não perder.

Existem muitos blogs, mas poucos são bons e acrescentam algo de útil em termos de informação. Entre muitos, recomendo este: http://oquatro.blogspot.com.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Assim vai o ensino superior

Já não é novidade para ninguém que muitas universidades portuguesas estão com gravíssimos problemas financeiros. Mas uma notícia saída no jornal Diário de Notícias, 12.11.2008, entristeceu-me. Reproduzo a notícia: «Universidade fecha para pagar subsídios. A Universidade do Minho (UM) encerra entre 22 e 27 de Dezembro para, com a redução na factura eléctrica, pdoer pagar os 20 por cento de subsídios de Natal de funcionários e docentes para os quais não têm dotação financeira. A proposta foi aprovada em reunião geral de alunos». Com um Portugal assim não vamos a lado nenhum.

Uma decisão justa

Supremo Administrativo anula colocação de seis trabalhadores na mobilidade especial

11.11.2008 - 18h22 Lusa

«O Supremo Tribunal Administrativo confirmou a decisão do Tribunal Central Administrativo do Sul que anulou a colocação de seis trabalhadores da Direcção-Geral das Pescas e Aquicultura no regime de mobilidade especial, segundo o Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado.Em comunicado, o STE refere que, embora "lentamente", os tribunais administrativos portugueses "vão consolidando jurisprudência que acautele o direito ao trabalho e à ocupação efectiva dos trabalhadores". Bettencourt Picanço realçou a importância desta situação por ser uma decisão do Supremo Tribunal Administrativo, mas principalmente "pelo seu conteúdo e pelos argumentos"."Existe o fundado receio de constituição de uma situação de facto consumado: a colocação dos associados do Recorrente [STE] na situação de mobilidade especial constitui para estes uma situação de instabilidade profissional e, consequentemente, familiar e emocional, a qual não será possível reverter no plano dos factos", lê-se no comunicado do sindicato, que cita um excerto do acórdão.
"É certo que a lei prevê mecanismos de apoio que visam minorar ou atenuar os efeitos da colocação dos funcionários na SME [mobilidade especial]. Mas, uma realidade é incontornável: os funcionários sujeitos a este regime passam de uma situação profissional de estabilidade para uma situação profissional de instabilidade", acrescenta.O acórdão do TC vai mais longe, segundo o comunicado do STE, ao afirmar que "não está indiciado minimamente o nexo da causalidade entre a redução com as despesas em salário desses funcionários em particular e a redução do défice público". E acrescenta: "Sucede que a criação de uma situação de instabilidade profissional aos funcionários públicos é, essa sim, prejudicial aos interesses do Estado, de forma mais relevante que o eventual, mas não demonstrado, sequer indiciariamente, prejuízo irreparável para a contenção do défice público".Ainda não foi possível obter qualquer comentário do Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas sobre a decisão do Tribunal.»

domingo, 2 de novembro de 2008

Os estilos de karaté

Existe uma variedade de estilos (ryu, na designação japonesa) e sistemas de karaté em todo o mundo. Os quatro principais estilos de karaté, que são apelidados de “tradicionais” (reclamando-se de um regresso às origens, à pureza), são: Shotokan, Wado-Ryu (estilos japoneses), Goju-Ryu e Shito-Ryu (okinawenses). Cada estilo (ou variante) tem adeptos próprios e um programa específico de graduações (enquanto forma de verificar o desempenho e o desenvolvimento dos alunos). Para o karateca, o estilo é a base da sua identidade e é típico, senão frequente, ouvir (nos centros de prática, nos estágios, nos balneários, etc.) praticantes mais graduados a verbalizar que o estilo que praticam os prepara melhor do que os outros, sem que lhes faltem argumentos para justificarem a razão das técnicas aplicadas. Para uma melhor compreensão do leitor, vejamos alguns detalhes sobre cada um dos estilos de karaté, e que se encontram presentes em Portugal:

– Shotokan – Shoto foi o pseudónimo escolhido por Gichin Funakoshi (1868-1957) para assinar os seus poemas e o termo Shotokan significa “a casa de Shoto”. Neste estilo de karaté, a ênfase é colocada no kata (uma sequência predefinida de exercícios praticados sem parceiro), que usa posições baixas e fortes para garantir uma base sólida para as técnicas elementares. Embora tenha sido Funakoshi o fundador do Shotokan, na realidade foi o seu filho Yoshitaka (Gigo) Funakoshi (1906-1945) que o desenvolveu na forma em que hoje o conhecemos. Rapidamente cresceu em popularidade, suportado e regulado pela Japan Karaté Association (JKA), fundada em 1955, e pela Shotokan Karaté Association (SKA), fundada em 1968. O aparecimento tardio de outros estilos explica, segundo Pascal Le Rest (2000), a predominância do Shotokan na Europa. Historicamente, foi o primeiro estilo de karaté implantado em França nos anos cinquenta, «et pris ses lettres de noblesse» (Le Rest, 2000: 171), com o mestre japonês Kasé no início dos anos sessenta. É considerado como o mais tradicional e fundamentalista dos sistemas japoneses de karaté, e continua a sofrer de um forte conflito interno entre estas duas organizações. Os conflitos passam por vários aspectos, nomeadamente pela interpretação das técnicas, dos katas e dos conceitos básicos inerentes a esta arte.

– Goju-Ryu – significa estilo “duro-suave”. É uma combinação entre as técnicas chinesas suaves e os duros/violentos métodos de treino de Okinawa. Esta “escola” foi fundada por Chogun Miyagi (1888-1953). No kata, o Goju-Ryu enfatiza os movimentos rápidos e lentos, a tensão e o relaxamento, com um profundo controlo da respiração abdominal. Tem como característica os movimentos pequenos e firmes.

– Wado-Ryu – significa “o caminho da harmonia”. Quando Gichin Funakoshi realizava demonstrações, normalmente era acompanhado pelos seus melhores alunos. Hironori Ohtsuka (1892-1982) era um desses alunos, que começou a treinar com Funakoshi em 1926. Ohtsuka, baseado na sua experiência em várias artes marciais, nomeadamente o judo, e com um conhecimento aprofundado da “ciência dos pontos vitais” (atemi-waza), funda, em 1939, este estilo de karaté, que utiliza técnicas livres de tensão (movimentos súbitos). O Wado-Ryu apoia-se fortemente nos exercícios de demonstração desenvolvidos por Ohtsuka. As posições deste estilo são ligeiramente mais altas do que as usadas no Shotokan.

– Shito-Ryu – fundado, em 1939, por Kenwa Mabuni (1889-1952), este estilo combina dois dos principais estilos antigos de Okinawa (Shuri-te e Naha-te). As posições são naturais e nos ataques utilizam-se, normalmente, posições mais altas do que nas defesas. Utilizam-se muito as técnicas de mão aberta. Também é característica complementar deste estilo o estudo e a prática do kobudo (armas tradicionais japonesas). O japonês Yoshinao Nanbu, campeão de França em 1967, foi o principal impulsionador do karaté Shito-Ryu em França nos finais dos anos sessenta. Embora o Shito-Ryu seja popular no Japão, não se expandiu muito além fronteiras. Em França, por exemplo, e no seio da Fédérations Française de Karaté et Disciplines Associées (FFKDA), é considerado como um «parente pobre» (Le Rest, 2000: 171).

Cada estilo de karaté tem o seu programa de graduações, enquanto forma de verificar o desempenho e o desenvolvimento dos alunos, e o seu método de recompensa. A aspiração de qualquer praticante, seja em que estilo de karaté for, é o cinto negro (1.º dan), e os graus ulteriores, o que, para muitos, simboliza o poder e a força. Não a força física, mas a de influência sobre os outros. É o reconhecimento, a compensação e a consciência, para si e para os outros, de uma meta atingida. A obtenção do cinto negro requer muito trabalho, paciência, perseverança e coragem.

Referências bibliográficas:

KEN’EI, Mabuni (2004), La Voie de la Main Nue – Initiations et Karate-Do, Paris, Editions Dervy.
LE REST, Pascal (2000), Le karatéka et sa tribu, mythes et réalités, Paris, L’Harmattan.LE REST, Pascal (2002), Le visible et l’invisible du karaté: ethnographie d’une pratique corporelle, Paris, L’Harmattan.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O endividamento do País


O nosso contributo

Pelo interesse que reveste, queremos participar no I Congresso Nacional de Treinadores de Karaté, patrocinado pela FNK-P, em Janeiro de 2009. Para isso, já remetemos para os organizadores uma proposta de comunicação. O título: «A credencialização dos treinadores/instrutores de karaté em Portugal». O resumo: «Na opinião de Curado (1991, 2002), a actividade de treinador revela-se particularmente complexa e é dificilmente imaginável vê-la desempenhada por homens ou mulheres com uma formação deficiente. Ou seja, hoje em dia pede-se ao treinador que assuma a sua função socio-desportiva, face a um triplo compromisso: i) actualização permanente; ii) formação integral dos atletas; iii) desempenho de um papel activo no desenvolvimento da sua modalidade e do desporto em geral.
O conhecimento evolui. As modalidades todos os anos recebem o impacto de alterações técnicas, tácticas, condicionais, volitivas, etc., introduzidas pelo estudo e investigação dos especialistas, tornando-se essencial que a estrutura nacional de formação de treinadores apresente respostas adequadas no âmbito da necessária actualização dos treinadores e estes tenham consciência de que o seu desempenho depende da auto-preparação e da abertura que revelem à actualização constante dos seus conhecimentos.
Segundo Constantino (1992), a formação de treinadores a ser desenvolvida entre nós não pode ser entendida como uma peça separada de uma política integrada de desenvolvimento desportivo e deve possuir um mínimo de unidade, harmonia e coerência com os objectivos previamente definidos. Assim sendo, quais são as necessidades de formação no âmbito das práticas desportivas que passaram a designar-se pela etiqueta de «artes marciais e desportos de combate»? Quais os objectivos a atingir? Qual é o papel dos formadores? São portadores de uma ideologia ou cultura com respeito ao desporto? Quais os efeitos sociológicos da formação ministrada? Que tipo de competências sociais, motrizes, intelectuais e afectivas são contempladas no processo formativo?
Estas e outras questões, que temos o direito de alvitrar, mesmo quando cientificamente seja difícil de responder, estão por esclarecer. A presente comunicação tem por objectivo apresentar algumas respostas, de um ponto de vista sociológico, sobre a credencialização dos treinadores/instrutores de karaté em Portugal.»
As palavras-chave: Sociologia do Desporto (Artes Marciais e Desportos de Combate); Formação; Aprendizagem
As referências bibliográficas:
Constantino, José Manuel (1992), Desporto Português: As Soluções Adiadas, Lisboa: Livros Horizonte, Col. Cultura Física.
Curado, José (1991), Planeamento do Treino e Preparação do Treinador, Colecção: Desporto e Tempos Livros, n.º 2, Lisboa: Editorial Caminho.Curado, José (2002), Organização do Treino nos Desportos Colectivos. Pontos de partida, Colecção: Desporto e Tempos Livros, n.º 29, Lisboa: Editorial Caminho.

Um amigo disse...

Pelo importante testemunho, reproduzo aqui uma mensagem que um amigo me enviou sobre o meu trabalho "Estudo Sociológico sobre o Karaté em Portugal": «Caro Vitor, / Foi com grande satisfação que li o teu trabalho e pude constatar que muitas “coisas” que eu próprio tenho empiricamente constatado ao longo dos mais de 30 anos de Karaté estão lá cientificamente reportadas. / Julgo ser um trabalho da maior importância para ser lido e relido por todos, mesmo por aqueles que TUDO JÁ sabem pois só assim o Karate Nacional conseguirá “dar o salto” e libertar-se de certos “fantasmas”.»

terça-feira, 28 de outubro de 2008

1.º Congresso Nacional de Treinadores de Karaté


Na "apresentação geral" do evento, pode ler-se que: «O primeiro CONGRESSO NACIONAL DE TREINADORES DE KARATÉ (1º CNTK) decorrerá a 24 e 25 de Janeiro de 2009, em Lisboa, e será organizado pela Federação Nacional de Karaté – Portugal, tendo como órgãos operativos a sua Direcção e, em particular, o seu Departamento de Formação, realizando-se em Lisboa, em local a anunciar oportunamente. O trabalho diário do Treinador, o superar as dificuldades do ensino e do treino, o descobrir metodologias alternativas de sucesso e o rasgar novas fronteiras também é um trabalho empírico. Trabalho realizado por aqueles que são a razão de ser da existência desta modalidade: sem Treinadores não há alunos nem competidores, sem Treinadores não há actividade e sem Treinadores é inexistente o movimento associativo – razão de ser da própria Federação. Está a actual Direcção da FNK-P ciente que esta iniciativa permitirá dar a voz aos Treinadores de Karaté e dignificar a modalidade. Mas sendo uma actividade importante, o Karaté é uma actividade demasiado importante para ser deixada só ao critério dos seus peritos. Especialistas noutras áreas que se cruzam com o nosso modo de vida darão igualmente o seu contributo a este Congresso. A Formação dos Treinadores de Karaté será o tema fulcral deste Congresso, objectivado em torno, entre outras, da Pedagogia e da Psicologia do Desporto, da Metodologia do Treino, do Direito do Desporto, da Ética Desportiva, da Carreira do Treinador, da Gestão da sua Actividade e da Regionalização da Modalidade, procurando-se equacionar as vertentes actuais e compreender o rumo futuro do Karaté. O desenvolvimento de competências destes técnicos afirma-se como um objectivo fundamental, quer estes assumam funções mais vocacionadas para a competição, quer desempenhem as mesmas segundo um ponto de vista mais orientado para o desenvolvimento nos escalões de formação, para a ocupação dos tempos de lazer ou para aquilo a que se chama o “Karaté tradicional”. Assim sendo, exortam-se todos os Treinadores de Karaté a participar neste Congresso comunicando as suas experiências, os seus anseios, as suas reflexões e a suas práticas. Igualmente se desafiam todos aqueles que, a par da sua actividade de Treinador, têm desenvolvido trabalhos de investigação científica dentro desta modalidade, estimulando-os a participar no 1º CNTK com comunicações científicas. Também se apela a todas as Associações para darem o seu contributo e se envolverem no desenvolvimento do Karaté, pois não há desenvolvimento sem envolvimento. O 1º CTNK não tem fins lucrativos e nenhum congressista ou comunicador será remunerado pela sua colaboração. Gostaríamos, no entanto, de conseguir retribuir com uma recordação aos convidados e a todos os participantes, pelo que o montante recebido das inscrições servirá para fazer face a essas despesas, assim como será investido na edição do Livro de Actas do Congresso, na preparação da sua segunda edição ou em actividades consonantes com o interesse demonstrado pela comunidade de Treinadores de Karaté. O controlo e viabilização organizativa, logística e económica desta primeira edição do CNTK serão desempenhados pela Direcção da FNK-P e pelo seu Departamento de Formação.»

Para mais informações, consulte: http://www.fnkp.pt/home/noticias/1CongressoNTK.pdf

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Restaurante Arena d'Évora

Sábado, dia 25 de Outubro, foi inaugurado mais um espaço gastronómico na cidade de Évora. O nome: Restaurante Arena d'Évora. Um espaço bonito, elegante e com um enquadramento muito interessante. Faça uma visita. Estou certo de que vai apreciar.

Estudos que não servem para nada

O jornal Expresso, de 25.10.2008, informava de que o "Estado gastou 134 milhões de euros em consultadoria" e "cerca de metade dos estudos pedidos entre 2004 e 2006 não tiveram aplicação prática". Para não cansar o leitor, dou um exemplo de um estudo que, apesar de bem feito e de apresentar linhas estratégicas de intervenção, foi colocado na "gaveta" e não teve qualquer sequência: Plano de Inovação da Região do Alentejo. Assim se desbarata os dinheiros públicos!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Estudar (cientificamente) o karaté em Portugal


Quem hoje entrar num centro de prática (dojo) de karaté verá os praticantes (karatecas) vestidos com um denominado kimono branco, do qual faz parte um cinto que distingue os praticantes por graduações (kyus, do branco até ao castanho; dans, a partir do cinto negro). O mestre, designado por sensei, ou o mais graduado na sua ausência (também chamado de sempai), normalmente cinto negro, é quem dá a aula que inicia-se e termina por rituais próprios de saudação. É ele que dá as vozes e ordens de comando do treino. Algumas caracterizam-se por serem em japonês: contagem, nomes das técnicas de defesa e de ataque, movimentos corporais, etc. É ele que decide quando e o momento de ir mais além no treino. As aulas (dois ou três dias por semana) têm, normalmente, uma duração de uma hora e meia. Os treinos seguem um clima de ordem (alinhamento por ordem de graduações e tempo de prática) e de respeito (silêncio, obediência). O mestre corrige a execução dos alunos (feedback positivo ou negativo), exemplificando quando acha necessário (modelo a ser interiorizado). De vez em quando, e à sua ordem, os alunos executam um grito, chamado de kiai. O treino decorre com um aquecimento muscular (designado de taisô) e depois com técnicas de defesa e de ataque isoladas (kihon), ou com um ou mais parceiros (kumité), com movimentos pré-estabelecidos. Também é dada ênfase aos katas (conjunto ordenado e codificado de acções técnico-tácticas de combate, executadas de forma encadeada sem oposição), de dificuldades inegáveis, que caracterizam as “escolas”, normalmente referidas como estilos (ryu) - Shotokai, Shotokan, Wado-Ryu (estilos japoneses), Gojo-Ryu e Shito-Ryu (okinawenses). Os estilos (escolas) pertencem a organizações geralmente tituladas de associações, e estas costumam denominar-se como membros de associações ou até federações nacionais, que se agrupam em internacionais.
Todos estes aspectos exteriores são apresentados como caracterizadores do karaté, aparecendo tal significantes em competições desportivas, estágios de mestres nacionais e estrangeiros, aulas e treinos, filmes, etc. Do ponto de vista sociológico, o karaté moderno, fora da sua instrumentalização militar e policial, integra-se num processo civilizacional analisado por Norbert Elias, em que a violência se transforma em convenções controladas. É veiculado por práticas convencionais, mas expressado através de discursos e símbolos adaptados do Japão para o “Ocidente”. O karaté constitui, assim, uma linguagem própria e possui uma cultura identitária, partilhando sentimentos de pertença e possui significados estruturadores, concepções de vida e de normas de conduta.
No caso concreto das artes de combate dual, onde o karaté se insere, podemos verificar diferentes usos sociais: desportivos (internacionalização das competições); profissionais (actividade remunerada); integração social (populações consideradas de risco); higienistas (desenvolvimento pessoal ou profissional); segurança (preparação militar, forças de segurança); artísticos (estilos corporais ou de vestuário); gestão/administração (incorporação de preceitos/ensinamentos estratégicos oriundos das “filosofias” marciais e do extremo oriente nos manuais de gestão e de economia); turísticos (visitas aos locais de Shaolin na China ou da Aikikai em Tóquio, entre outros). A noção de uso social, amplamente referida nos trabalhos da Sociologia da Cultura e da Sociologia do Desporto, visa sublinhar que um elemento cultural, qualquer que ele seja, presta-se a usos diferenciados segundo os grupos sociais que o adoptam. Isto sublinha igualmente que uma prática não é efectuada por si mesma, mas que está muitas vezes associada a um objectivo, mais ou menos definido, que visa justificar o tempo, a energia e os meios que lhe consagramos. Falar de uma pluralidade de usos sociais para as actividades físicas e desportivas, sugere que os objectivos e as justificações variam segundo os contextos, os actores em presença e os motivos/compromissos do momento. Bem entendido, estes usos sociais raramente existem no seu estado “puro”. Cada contexto concreto pode cruzar-se e misturar-se com vários outros, criando várias nuances.
Apesar da importância do karaté ser reconhecida internacionalmente, esta modalidade tem sido considerada como um objecto sem dignificação própria das investigações académicas. Rareiam os estudos que tomam esta modalidade como objecto parcial ou integral de análise. Para além dos estudos serem poucos, os dados oficiais estatísticos são confusos e muito incoerentes. Em nosso entender, a escassez de publicações com informação e dados que ajudem a compreender esta modalidade desportiva-marcial é uma das fragilidades mais significativas.
Procurando contrariar a falta de estudos nesta área temática em Portugal, Abel Figueiredo (Professor do Instituto Politécnico de Viseu) lança-se na elaboração da primeira tese de doutoramento em Ciências do Desporto (na Faculdade de Motricidade Humana), abordando, seriamente, o karaté. Termina a sua obra em 2006. Em 2004, também nós procurámos encetar um novo caminho sobre o assunto. Para isso, inscrevemo-nos no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) para elaborarmos a primeira tese de doutoramento em Sociologia, tendo o karaté (e outras artes marciais) como principal matéria-alvo de estudo. Este trabalho de investigação, que ainda se encontra em curso, pretende introduzir uma perspectiva de análise que não tem sido, na nossa opinião, considerada noutros estudos que se debruçam ou debruçaram sobre o tema: Quais os problemas da difusão do karaté em Portugal? Quais as dificuldades, em termos temporais e espaciais? Qual a génese e o desenvolvimento do karaté em Portugal? Que quadro legislativo existe? Karaté: profissão ou vocação? Qual o perfil sociológico dos praticantes? Quais os motivos que os levaram para esta prática? O que levou a que o karaté esteja mais radicado em algures do que nenhures? Vantagens e desvantagens do benevolato do dirigismo nas organizações ligadas à modalidade? Qual a relação de forças agregadoras e desagregadoras da organização do karaté? Quais as causas e efeitos disso? Que dados numéricos existem sobre a orgânica do karaté e qual a sua regularidade? Por que é tão diminuta a participação das mulheres no karaté? Porquê a necessidade dos praticantes justificarem a autenticidade de um estilo?
As respostas a estas e outras questões estão por esclarecer. Por isso, cada um de nós tem de dar passos explicativos sobre o que ainda não foi explorado. Como disse o Professor João Boaventura (ex-subdirector do Instituto do Desporto de Portugal) «as práticas desportivas constituem, assim, um permanente desafio à prática científica».
Também o Professor Doutor Alan Stoleroff (do ISCTE), orientador da nossa tese, tem contribuído para um melhor conhecimento sobre a prática do karaté, tendo apresentado várias comunicações científicas em congressos ou eventos similares. Em conjunto, e para além da observação-participante, estamos a aplicar um inquérito por questionário, com o objectivo de traçar um perfil sociológico dos praticantes avançados de karaté (cintos castanhos e negros) em Portugal: das representações dos actores, dos significados da sua prática, da identidade social daí derivada, e, assim, das culturas das comunidades de praticantes. Procura-se desenvolver uma análise das motivações e entendimentos dos praticantes.
A realização do Congresso Científico sobre Artes Marciais e Desportos de Combate em Portugal, que teve lugar em Viseu, em Abril de 2007, demonstrou que existem outros (bons) investigadores no terreno.
Para os que pretendem iniciar uma linha de investigação nesta área temática, deixamos aqui algumas referências bibliográficas. Recomendamos também a leitura da Revista de Artes Marciales Asiáticas, promovida pela Universidade de León (Espanha), tendo como director o Professor Doutor Carlos Gutiérrez García.

Referências bibliográficas:
BOAVENTURA, João Correia (1995), Estudo sobre as artes marciais orientais e as organizações não governamentais: mundiais, internacionais e nacionais, Lisboa, Ministério da Educação, Instituto do Desporto, INDESP/IDP.
CLEMENT, Jean-Paul (1980), Etude comparative de trois arts martiaux: Lutte, Judo et Aïkido, Paris, INSEP.
FIGUEIREDo, Abel (2006), A Institucionalização do Karaté: Os Modelos Organizacionais do Karaté em Portugal, UTL/FMH (tese de doutoramento policopiada).
Fonseca, Manuel António (2001), «Estudo exploratório acerca dos motivos para a prática do karaté», in A FCDEF-UP e a Psicologia do Desporto: Estudos sobre Motivação, FCDEF-UP, pp. 25-27.
GARCÍA, Carlos Gutiérrez (2004), Introducción y desarrollo del judo en España (de principios del siglo XX a 1965): el processo de implantación de um método educativo y de combate importado de Japón, Serie Tesis doctorales 2003, Universidad de León.
Gutiérrez, Mikel Pérez (2007), 100 años de artes marciales. Elaboración de un repertorio bibliográfico y análisis bibliométrico de las monografías sobre artes marciales publicadas en España (1906-2006), Universidad de León, Facultad de Ciencias de la Actividad Física y del Deporte, León (policopiado).
ROSA, Vítor (2007), «Encuadramiento Legal e Institucional de las Artes Marciales y Deportes de Combate en Portugal», in Revista de Artes Marciales Asiáticas, Universidade de León (Espanha), vol. 2, n.º 4, Deciembre, pp. 8-31.
ROSA, Vítor (2007), «Estudo Sociológico sobre o Karaté em Portugal», in Actas das VIII Jornadas do Departamento de Sociologia e Centro de Investigação em Sociologia e Antropologia “Augusto da Silva”, sob o título “Questões Sociais Contemporâneas”, Universidade de Évora, pp. 239-252.
ROSA, Vítor (2007), «Estudo Sociológico sobre as Artes Marciais e os Desportos de Combate em Portugal», comunicação apresentada nas IX Jornadas do Departamento de Sociologia, intitulado “Transpondo Fronteiras”, Universidade de Évora, 27 e 28 de Abril de 2007 (policopiada).
ROSA, Vítor (2007), «Estudo Sociológico sobre as Artes Marciais e os Desportos de Combate em Portugal», comunicação apresentada no Congresso Científico de Artes Marciais e Desportos de Combate (1.ª edição), Instituto Politécnico de Viseu, 13 e 14 de Abril de 2007 (policopiada).
STOLEROFF, Alan David (2000), «Profissão ou vocação: instrutores de karaté em Portugal», in Acta do IV Congresso Português de Sociologia, Coimbra, pp. 1-7.
STOLEROFF, Alan David (2004), «Sobre a Produção de Regras da Inter-Acção em Comunidade: O Dojo de Karate», comunicação apresentada no V Congresso Português de Sociologia, realizado de 12 a 15 de Maio, Universidade do Minho, Braga, sob o tema geral Sociedades Contemporâneas: Reflexividade e Acção.
TOKITSU, Kenji (1993), La Voie du Karaté. Pour une théorie des arts martiaux japonais, Paris, Col. Points - Série, Éditions Seuil, Janeiro.
WACQUANT, Loïc (2000), Corps et âme. Carnets ethnographiques d’un apprenti boxeur, Marseille, Agone.

Dalai Lama

«Quando as tragédias acontecem,
creio que tudo se passa à superfície.
É exactamente como o oceano.
A onda vem à superfície,
e por vezes é forte e perigosa.
Mas vem e vai,
vem e vai,
e lá no fundo
o oceano
continua
sempre
calmo.»

terça-feira, 21 de outubro de 2008

17 de Outubro - Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza

“A existência de 2 milhões de pessoas que vivem em situação de pobreza em Portugal, traduz uma injustiça e constitui uma ofensa à dignidade pessoal e um desrespeito pelos direitos humanos, que só nos pode incitar ao profundo inconformismo. É este inconformismo a que pretendemos dar voz, procurando que o mesmo se transforme numa energia colectiva positiva, capaz de nos fazer caminhar no sentido da erradicação das causas produtoras e reprodutoras da pobreza e da exclusão social”. Eis uma frase que se pode ler na Internet, se googlar a palavra "pobreza".

A este respeito, vale a pena relembrar as palavras de Eça de Queirós, que no seu tempo dizia: «Ninguém vive na abundância e todos se encontram em dificuldades. Sofre o empregado pela pequenez dos ordenados; sofre o operário pela escassez dos salários; sofre o logista pelos limitados meios de comprar de que dispõe o público; sofre o comerciante pela estagnação das transacções; e sofre o agricultor pela longa crise agrícola que lhe desvaloriza a propriedade. Todos sofrem (...)» (apud. Maria Filomena Mónica, Eça de Queirós, Quetzal Editores, 2001, p. 276.

Continua tudo na mesma. O fosso, apenas, alargou.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Quinta da Regaleira


Recomendo aos meus leitores, se os tiver, claro, uma visita à Quinta da Regaleira. É um dos vários monumentos de Sintra e é um dos mais intrigantes edifícios portugueses. Opte pela visita guiada. Não se vai arrepender.

Dois livros a não perder!

«É sempre uma tolice dar conselhos, mas dar bons conselhos é absolutamente fatal» (Wilde, 2008: 13).

Com prazer e interesse, estou a ler dois livros: “O retrato do Sr. W. H.”, de Óscar Wilde, e “Eça de Queirós”, de Maria Filomena Mónica. Wilde expressa o fascínio que sente pela personalidade de Shakespeare, debruçando-se sobre o enigma da entidade do Sr. W. H., a quem os Sonetos de Shakespeare foram dedicados na primeira edição. Com a socióloga Maria Filomena Mónica somos levados a compreender a vida e a obra do maior e mais popular romancista português, José Maria Eça de Queirós. Fiquei a saber, e não sabia, que A Capital, O Conde de Abranhos ou Alves & C.a não são de Eça. Explico-me melhor: a sua prosa teve a «indesejada» colaboração do seu filho mais velho, José Maria.

sábado, 18 de outubro de 2008

http://www.archbudo.com/fulltxt.php?ICID=869385
Veja as conclusões da 2nd International Scientific Conference of Experts - Researches on Martial Arts and Humanists, Targowiska - Krosno, 25 e 26 de Abril de 2008.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Revista de Artes Marciales Asiáticas


http://www.revistadeartesmarciales.com/
«La Revista de Artes Marciales Asiáticas es una iniciativa que emprende la Universidad de León en el año 2006, tras la adquisición de los derechos en castellano de la revista norteamericana Journal of Asian Martial Arts, una de las publicaciones de mayor prestigio en el ámbito de las artes marciales a nivel internacional.»
Já se encontra à venda o número 3, de 2008.

As artes marciais como campo de estudos sociológicos


As artes marciais inserem-se num campo mais abrangente – o desporto. Não é necessário demonstrar com números ou gráficos que o desporto é importante. Basta pensarmos, por exemplo, na atenção que os meios de comunicação social lhe prestam regularmente; na quantidade de dinheiro (público e privado) que se investe; na dependência da publicidade; na maior implicação do Estado por razões tão diversas como o desejo de combater a violência dos espectadores, melhorar a saúde pública, aumentar o prestígio nacional; no número de pessoas que com regularidade praticam desporto ou assistem como espectadores, para não falar dos que dependem directa ou indirectamente dele; no emprego de metáforas desportivas em esferas aparentemente tão diversas da vida como a política, a indústria, o exército, etc.; e, para concluir, nas ramificações a nível nacional e internacional, sociais e económicas, negativas e positivas, de competições internacionais como as Olimpíadas e os mundiais de futebol, karaté, rugby, etc. Nenhuma actividade terá servido com tanta regularidade de centro de interesse e tanta gente em todo o mundo.
As chaves da importância do desporto emanam da psicologia dos atletas e espectadores. Do ponto de vista pós-estruturalista e foucaultiano, John Fiske (1992) sugeriu que uma das razões da popularidade do desporto, como actividade contemplativa, é a sua capacidade de desconectar o mecanismo disciplinado do mundo laboral. E já na década de ‘60, Norbert Elias e Eric Dunning empreenderam um exame preliminar dos desportos numa perspectiva parecida à de Fiske (Elias e Dunning, 1986). Versava principalmente sobre o desporto e o controlo social. Mais concretamente, os autores sugeriram que as funções principais de ver ou praticar desporto permitem às pessoas tornarem-se «controladores» ou «controlados» – sejam de classes baixas ou altas –, procurando emoções.
Segundo estes dois autores, o desporto é um antídoto à rotina da vida diária das sociedades industriais avançadas e relativamente “civilizadas”. Para eles, o desporto é mais uma actividade voluntária do que obrigatória. Para isso, esboçam a hipótese de que o desporto implica uma procura de uma actividade emocional agradável que quebre a rotina através do que chamam «motilidade», «sociabilidade» e «mimésis», ou a combinação das três coisas. Quer isto dizer, que o desporto voluntário parece orientar-se em grande medida para a obtenção da satisfação da actividade física e do contacto social que se mantém nos desportos, despertando afectos. Como diz Maguire (1992), o desporto implica toda uma procura da importância das emoções.
Nas sociedades modernas, o desporto adquiriu uma importância a nível individual, local, nacional e internacional. Na valorização concreta do desporto em geral e em particular numa sociedade, o grupo desempenha um papel importante na formação da identidade dos indivíduos. Assim, os desportos modernos são algo mais do que o simples dirimir quem corre mais rápido, salta mais alto ou marca mais golos; são também formas para provar a identidade, da qual as pessoas aprendem o valor social do desporto. Certamente que o desporto não é unicamente importante para provar a identidade individual, mas também para processos afins inter-grupos e para a estrutura hierárquica dos países. Basta para isso pensar nas competições desportivas entre escolas de aldeias ou cidades, equipas e clubes que representam localidades ou cidades em questão e nações em competições com as Olimpíadas e os campeonatos do mundo. Em resumo, e baseado no «património acumulado de interpretações provisoriamente validadas a que se chama teoria» (Almeida e Pinto, 1986: 56), é possível afirmar que o desporto é importante para as sociedades modernas para a identificação dos indivíduos com as colectividades, e para a formação de manifestações de sentimentos colectivos e de equilíbrio do(s) grupo(s).
As pessoas mais comprometidas com o desporto recebem o nome de “fans” e para muitos destes torna-se uma “religião suplente”. Provas disto, temos a atitude reverente de muitos fans às suas equipas e a idolatria de atletas concretos. Também não é invulgar que transformem os seus quartos em autênticos templos. E “celebrar” ou “adorar” uma ou mais colectividades coloca características religiosas, no sentido de Durkheim (1996).
Segundo Diem (1971), todos os desportos têm a sua origem num culto. A análise de Durkheim sobre a «efervescência colectiva» gerada por rituais religiosos dos aborígenes australianos, nos quais viu a raiz da experiência e o conceito do «sagrado», pode transladar mutatis mutandis os sentimentos de emoção e celebração comunitária que constituem a experiência no contexto do desporto moderno.
Norbert Elias (1992: 40), um dos maiores estudiosos da expansão do fenómeno desportivo na era moderna, e que elevou «as funções corporais ao nível do objecto histórico e sociológico» (Le Goff e Truong, 2005: 17), lançou uma questão fundamental: que espécie de sociedade é esta onde cada vez mais pessoas utilizam parte do seu tempo na assistência ou participação de confrontos regulados de habilidades corporais a que chamamos desporto? E procurou a resposta na macro-estrutura social, no amplo conjunto de transformações morais e comportamentais que denominou «processo civilizacional» – que assenta, simplificando, no auto-controlo da violência e na interiorização das emoções – através do estudo dos costumes e das «técnicas do corpo», nomeadamente na Idade Média e no Renascimento.
A ideia de processo em Elias não admite uma sociedade estática. Para ele, a civilização «é cegamente posta em movimento pela dinâmica própria de um tecido de relações, por alterações específicas na maneira como os homens têm de viver uns com os outros» (Elias, 1990: 189). A história das sociedades é, assim, uma constante mudança sem sentido ou racionalidade próprios, é a história de processos variados que têm como principais elementos o indivíduo e o grupo ou cultura no qual está inserido. «O que muda no decurso a que chamamos história são as relações mútuas entre as pessoas e a modelação a que o indivíduo é sujeito dentro delas» (Elias, 1990: 224).
A dinâmica da sociedade, ou seja, a ordem social que sustenta todo o processo, é mantida através de normas externas ao indivíduo segundo padrões legais e morais constituídos. Grosso modo, o que ocorre no processo civilizacional descrito por Elias é que tais normas passam, para os indivíduos, do âmbito cultural ao natural. Por outras palavras, elas são interiorizadas pelos homens e perdem o seu carácter de normas impostas externamente, passam a funcionar como uma espécie de “superego colectivo” regulando as relações sociais.
Com uma formação académica que contava com estudos de Medicina, Psicologia, Filosofia e Sociologia, nas cidades de Breslau, Freiburg e Heidelberg, e com a sua experiência de trabalho nos anos 30, no Instituto de Investigações Sociológicas de Frankfurt, onde é assistente de Karl Mannheim (1893-1947) naquela Universidade, este autor, no caso particular da Sociologia do desporto, vem dizer que esta área está esquecida ou que, pelo menos, não tem merecido a devida atenção. Na página 17 afirma que «está implícita a ideia de que os sociólogos têm esquecido o desporto, principalmente porque só alguns conseguiram distanciar-se o suficiente dos valores dominantes e das formas de pensamento características das sociedades ocidentais, enfim, para terem a capacidade de compreender o significado social do desporto, os problemas que este coloca ou o campo de acção que oferece para a exploração de áreas da estrutura social e do comportamento que, na maior parte, são ignoradas nas teorias sociais».
A desatenção da Sociologia face ao fenómeno desportivo mantém-se actual, bastando para isso ler os argumentos de autores como José Esteves (1967), Gilles Combaz (1992), Salomé Marivoet (1998), Carlos Nolasco (2000), José Raposo (2002), só para dar alguns exemplos. Tanto assim é, que estes autores exortam para que os sociólogos do desporto escrevam textos sobre esta matéria para que o grande público possa beneficiar deste “instrumento” de análise.
Neste sentido, e para terminar este texto, apelo aos cientistas sociais para não ficarem desatentos e para desenvolverem estudos sobre o desporto. As artes marciais e os desportos de combate oferecem matéria riquíssima de investigação.

Referências bibliográficas

RAPOSO, José Vasconcelos (2002), «Obstáculos e exigências do campo profissional da Sociologia do Desporto», in Um Olhar Sociológico sobre o Desporto no Limiar do Século XXI – Actas das III Jornadas de Sociologia do Desporto, organizadas pelo Sesd da Associação Portuguesa de Sociologia e Faculdade de Motricidade Humana, Centro de Estudos e Formação Desportiva, Lisboa, Secretaria de Estado da Juventude e Desporto, pp. 165-173.
NOLASCO, Carlos (2000), «Entre a técnica da força e a força da técnica. A competição jurídica pelo espaço desportivo», in Acta do Congresso Português de Sociologia, pp. 1-11.
MARIVOET, Salomé (1998), Aspectos Sociológicos do Desporto, Lisboa, Livros Horizonte.
Combaz, Gilles (1992), Sociologie de L'Education Physique, Paris, PUF.
LE GOFF, Jacques e TRUONG, Nicholas (2005), Uma história do corpo na idade média, (trad.: Telma Costa), Lisboa, Editorial Teorema.
Almeida, João Ferreira e Pinto, José Madureira (1986), «Da teoria à investigação empírica. Problemas metodológicos gerais», in SILVA, Augusto Santos e PINTO, José Madureira (org.), Metodologia das Ciências Sociais, Porto, Biblioteca das Ciências do Homem, Edições Afrontamento, pp. 55-78.
ELIAS, Norbert e DUNNING, Eric (1992), A Busca da Excitação, Lisboa, Difel.
Diem, C. (1971), Weltgeschichte des Sports, 2 Bände, Stuttgart.
ELIAS, Norbert e DUNNING, Eric (1986), Quest for excitement: sport and leisure in the civilising process, Oxford, Blackwell.
Maguire, Joseph (1992), «Towards a Sociological Theory of Sport and the Emotions: A Process-Sociological Perspective», in Eric Dunning and C. Rojek (eds.), Sport and Leisure in the Civilizing Process: Critique and Counter-Critique, Toronto, University of Toronto Press.
Esteves, José (1967), O Desporto e as Estruturas Sociais, Lisboa, Prelo Editora.
DURKHEIM, Émile (1996), Formas Elementares da Vida Religiosa, Rio de Janeiro, Ed. Martins Fontes.Fiske, John (1992) Power Plays, Power Works, London, Verso.